A bola como um oásis emocional

Almiro Santos

O país enfrentou, com justificado alarme, as incertezas de um campeonato nacional de futebol cuja modalidade de disputa foi praticamente decidida por uma feliz ingerência do agregado político. Só assim se entendem os clamorosos aplausos endereçados ao Presidente da República no acto em que Filipe Nyusi assina a factura de um Moçambola de todos-contra-todos e alivia o estado de tensão da tribo da bola indígena, como aliás havia acontecido numa ocasião anterior.

Ao assumir as custas e as despesas da maior prova futebolística do país, o agregado político não se regula apenas pela sua paixão pelo jogo da bola, mas também pelo conhecimento da esterilidade e até infecundidade da indústria desportiva do país, não obstante as repetidas homilias tendo em vista encontrar o esperado caminho da sustentabilidade.

Neste desiderato é legítimo que se faça justiça e tributo ao jovem presidente da Liga Moçambicana de Futebol, Ananias Coana, de uma persistência e resiliência a roçar ao irritante e importuno. Não fosse a sua quase obstinação pelo Moçambola de todos-contra-todos e muito provavelmente o seu mandato, que termina este ano, seria poluído pela aparente descaracterização do modelo zonal que esteve na iminência de ser adoptado.

Mas as contas e as transacções deste Moçambola têm outros algoritmos que não cabem sequer nas meticulosas calculadoras dos patrocinadores, pois que nos remetem ao campo emocional de um povo sitiado e lacerado, primeiro pelo “Idai” e depois pelo “Kenneth”, os dois opressivos ciclones que deixaram um rasto de destruição na zona centro e norte do país.

Ao futebol cabe agora não apenas a tarefa de mitigar a agonia e o desespero daqueles que ficaram corroídos pelas intempéries aludidas, mas também a de proporcionar um novo móbil e substância de vida a todos aqueles que, como nós, não podem ficar desinteressados e apáticos a tanto sofrimento, até porque, como dizia Léopold Senghor, o monumental estadista senegalês, a emoção é negra e a razão é grega.

Por conseguinte, temos todos o direito de estar exultantes e felizes porque o futebol, como oásis emocional, nos propõe um restaurado circuito de sobrevivência e de esperança.

Obrigado a todos quantos nos deram o futebol de volta!

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