A FIFA já perdoou Federação do Sudão mas Chiveve “ri-se da desgraça alheia”

Está praticamente todo o mundo lembrado que depois dos ultimatos dados pela FIFA ao Governo sudanês para que repusesse o elenco federativo afastado por ordens governamentais, facto ignorado pelos visados (pelo menos dentro dos prazos fixados), a bomba acabou mesmo estoirando, para gáudio da delegação do Ferroviário da Beira, que se fez a Cartum, Sudão, para discutir a eliminatória em campo, longe de imaginar que teria os esforços físicos poupados.

Mas teve, porque a FIFA tratou de mostrar a sua implacabilidade contra todo e qualquer Governo que se intromete na gestão do futebol dos seus membros, como aconteceu com o Governo sudanês, que por livre e espontânea recreação achou-se no direito de violar o sagrado artigo 13 dos Estatutos da FIFA, com o agravante de ter recorrido ao uso de militares para escorraçar o presidente Mutasim Gaafar Sir Elkhatim, democraticamente eleito e reconhecido pelo organismo máximo de tutela do futebol mundial.

Confesso que até hoje custa-me perceber como é que o Governo sudanês cometeu tamanha asneira, misturando alhos com bugalhos, quando já devia ter percebido com base em experiências passadas que a FIFA não tolera aquele tipo de intromissões políticas nas federações. Custa-me perceber como é que interesses pessoais podem prejudicar toda uma nação, lembrando que o elenco federativo que estava a gerir o futebol sudanês era dirigido por Abdel Rahman Elkatim.

O Governo sudanês teve tempo de sobra para repor a normalidade no funcionamento da SFA, pois consta-nos que mesmo quando o Ferroviário da Beira foi a Cartum para defrontar o Al Merreikh a FIFA já havia mostrado um cartão amarelo, tendo deixado claro que se os governantes fizessem ouvidos de mercador quem sairia a perder não seria mais ninguém que o próprio Sudão, que seria suspenso do convívio futebolístico mundial, como viria a acontecer no dia 7 último.

Estranhamente, só quando a FIFA cumpriu com a promessa de suspender a SFA e todas as equipas daquele país é que o Governo acordou do sono profundo e voltou atrás com a sua decisão, tirando o elenco colocado por decreto ministerial (e com subsídio da força das armas), recolocando aquele que é e sempre foi legitimamente reconhecido pela FIFA, facto que levou este organismo a levantar, terça-feira última (13), a suspensão imposta à Federação Sudanesa.

Mas o Primeiro-Ministro sudanês, Bakri Hassan Salih, agiu tarde demais, porque em tão pouco tempo os danos para o futebol sudanês fizeram-se sentir de forma incalculável e irreparável. É que na sequência do banimento do Sudão pela FIFA a Confederação Africana de Futebol (CAF) viu-se obrigada a desqualificar todas as equipas sudanesas que estavam envolvidas nas Afrotaças – El Hilal e Al Merreikh (Liga dos Campeões) e Al Hilal Obayed (Taça CAF) – beneficiando terceiros, no caso particular de Moçambique, o Ferroviário da Beira.

Mas seguiu-se um susto. Num mundo onde as redes sociais estão na moda, o levantamento da suspensão do Sudão pela FIFA gerou alguma preocupação, pois certas correntes em Moçambique conjecturavam que com esse levantamento o Ferroviário da Beira deixava de estar apurado aos quartos-de-final. Mas não! É preciso separar as águas. Ou melhor, é preciso reiterar que na sequência da suspensão houve desqualificações que vão prevalecer. A recente decisão da FIFA não tem efeitos retroactivos. A CAF não vai voltar atrás. As equipas sudanesas estão irremediavelmente desqualificadas. O Ferroviário da Beira tem, pois, legitimidade de continuar a “rir-se da desgraça alheia”.

E esperamos, enfim, que este incidente tenha servido de lição, de uma vez por todas, para muitos países. E ainda bem que o nosso carismático Ministro da Juventude e Desportos, Alberto Nkutumula, é prudente nesse aspecto, conhece bem o terreno que pisa e sabe que as areias do futebol são extremamente movediças, daí que – acreditamos – nunca vai “chafurdar na lama” como o fizeram os sudaneses.

Até porque podemos arriscar em afirmar que por inerência da sua formação, o bom do Nkutumula já percorreu páginas na “cartilha da justiça” que alicerçam a sua maneira de ser e estar no desporto (futebol em particular) e na vida, em geral.

Ainda bem!

Reginaldo Cumbana

 

 

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