O DIREITO DE NURO AMERICANO NÃO SE EXPÔR NAS URNAS

A derrota de Nuro Americano à boca das urnas já deve estar a ser averiguada por quem teve a imprudência de o colocar como rosto e invólucro de uma ideia de manutenção do controlo do clube tricolor nas mãos das empresas filantropas, sem mesmo se dar ao trabalho de verificar as consequências de uma candidatura mais sugerida pela convicção do poder das dotações mensais de duas empresas de nomenclatura estatal do que realisticamente pela malícia da tirania do voto. Talhado à medida de um guarda-redes de referência e craveira, Nuro Americano é precisamente o produto de um paradoxo da substância tricolor. O candidato que, nestas eleições, representava os interesses das empresas integradoras, é genuinamente produto do futebol do Maxaquene, tendo sido transformado em funcionário das Linhas Aéreas de Moçambique precisamente pela audácia e distinção com as quais defendeu as balizas da sua equipa de futebol. Tal como Ernesto Júnior, o presidente-cessante, que caucionou toda a sua inteligência e talento ao serviço dos momentos mais celebrados do basquetebol maxaquenense, haverá ainda muitos outros exemplos de inclusão social neste legado das integrações, do qual importa exaltar, mais do que os repasses e os ganhos financeiros de quem quer que seja, a socialização dos atletas e a sua colocação no mercado do trabalho. São estes espólios que se perdem no âmbito de um processo que pode levar à desintegração das integrações. E é uma pena, porque está intrínseco neste conceito, arrebatado num momento político único, o princípio de garantir que, à curta carreira do atleta, se ajuntem as habilidades do cidadão com uma profissão perdurável, um tributo à formação de uma cidadania mais higiénica. Na verdade, nem os eleitores de Arlindo Mapande perceberam que o seu voto foi contra um dos seus mais idolatrados filhos, nem mesmo aqueles que inspiraram Nuro Americano enten-deram o esboço deste cruzamento que hoje reproduz aquilo que é a verdadeira substância de um clube como o Maxaquene. Ambos perdem porque o Maxaquene é apenas um, e fica penoso impelir uma figura como a do Nuro Americano para uma derrota desnecessária e despropositada nas urnas. E é precisamente aqui que o antigo guarda-redes do Maxaquene e da Selecção Nacional tinha o direito de não ser exposto.

Almiro Santos