Quando ele também via o que nós não víamos

Com todos os outros o impulso começa precisamente na retina. De forma automática e inconsciente. É o órgão que, indiscriminadamente, comanda o dedo indicador, nervosamente postado por sob o aparelho. Assim como o soldado, entrincheirado numa qualquer frente de batalha, mantém o indicador instintivamente retesado, teso mesmo, porém suavemente encostado no gatilho da sua arma.

Com Domingos Elias era diferente. O processo de registo de emoções e de momentos era mais complexo, mais intrincado. A impulsão era instigada da alma e do coração, subia pelas artérias e por delicados vasos sensoriais até à retina. Depois retornava por aperfeiçoados sifões aperceptivos, bombeado por uma sensibilidade única, até ao momento em que o tempo parava e o registo ficava amoldado clamorosamente para a eternidade.

Assim foi o registo de uma grande parte da história contemporânea do desporto deste país. Ou talvez toda uma boa parte. Pela alma e pelo coração mais do que pelo calibre ou pelo tamanho de telescópicas lentes atreladas à sua inseparável máquina, de prodígios e de assombros, que toda a vida e carreira transportou a tiracolo, mas sobretudo levando-a atravancada e embaraçada ao peito e à alma.

Domingos Elias passa à reforma e deixa mais do que o espólio e o legado que nos faz singulares e únicos aos olhos dos leitores. O valor intrínseco dos momentos que registou ultrapassa o acontecimento, porque aos olhos do fotojornalista, mesmo as ocasiões mais disformes e desengraçadas ganhavam a graça e a forma que ele moldava. Carinhosamente, sem excepção e sem partição.

As rixas e as cotoveladas dos jogadores apareceram-nos como afectuosos abraços aos registos do Domingos; os pés em riste como simples disputas de bola desportivamente comprovadas; os golos dos adversários foram vistos como os nossos próprios golos; as lágrimas dos outros como a nossa dor e a alegria dos vencedores a comemoração dos vencidos. Tudo isto sem nunca se deixar arrebatar por assomos de clubismo e mesmo sem prejuízo da sua equipa de opção, o Matchedje. Porque aos olhos de Domingos Elias todos ganhavam, mesmo aqueles que perdiam. Por isso mesmo o desporto fotografado por Domingos Elias tinha o seu colorido sem mesmo o ter, tinha e seu imaginoso sem sequer chegar ao pitoresco.

Foi o mágico que transformou muitos sapos em príncipes; muitos campos de pastagem em monumentais relvados; muita grosseria em cortesia, enfim, muitos indivíduos de má catadura em indivíduos bem-apessoados. Foi assim que editamos um desporto melhor, mais higiénico e salubre, porque os aromas e os odores que impregnavam as imagens de Domingos nos contagiavam e nos induziam a escrever um desporto mais agradável do que aquele que se praticava.

Num último assomo de desnecessária lisonja, tomamos a liberdade de republicar esta imagem, da inauguração do Estádio Nacional do Zimpeto, cuja autoria é inquestionavelmente de Domingos Elias. Foi estampada num artífice que homenageou um Chefe de Estado, mas mais do que isso, prova o que temos estado a tentar poetizar, a aversão do fotógrafo pelo óbvio, pelo manifestamente fácil. A estória convertida por desta imagem é que estávamos todos no interior do Estádio, embevecidos e extasiados com o festival de fogo-de-artifício, quando o seu autor se esgueirou por todos nós e seguiu a sua intuição, colocando-se num ponto fora da exultação e do gáudio. Apenas um génio como Domingos se lembraria, num momento daqueles, de que a melhor imagem daquele tropel de júbilo e de exaltação colectiva estaria precisamente fora do Estádio…

De hoje em diante seremos como o Barcelona sem o Lionel Messi ou o Real Madrid sem o Cristiano Ronaldo, mas como recordou alguém na escassa homenagem que os colegas lhe renderam, um soldado não se reforma, passa à reserva.

Para terminar, na apoteose possível, recorremo-nos do nosso exíguo e acanhado bitonga para dizer “obrigado Domingos” e que “estamos juntos!”: nhibhonguile Muaga, hiwomo hatshapho!

Almiro Santos