UMA ILHA CHAMADA NACALA

 Lembro-me como se fosse hoje de uma amiga de lá, que já residia na capital um bom par de anos, ocupando até cargos de destaque na sociedade, mas já sem aquele sotaque quase cantado. Ela apercebeu-se do meu desvio descontrolado e disse: cuide-se. Ali vais-te perder mesmo. Nós somos iguais a nós mesmas.
Muitos se encantaram, deixaram tudo e ficaram por lá.
Ri-me. Ela pensava que o meu encanto era apenas por mulheres. Para mim, Nacala tinha muito mais do que isso. Senti hospitalidade extrema; um acolhimento sem igual. Ao mesmo tempo sentia que, naquela simplicidade, havia algo que pudesse ter um sabor azedo. Mesmo assim não deixei o abstrato falar mais alto.
Durante anos puxei o filme das conversas com a minha amiga de Nacala, mulher linda, com corpo de viola, de andar bamboleante que fazia esquecer que era esposa de alguém. Era daquelas mulheres irresistíveis, mas ao mesmo tempo que encantava-me, criava-me uma sensação de temor.
Um dia, não sei se de propósito, sentados na cadeira de uma viatura, a saia dela subiu uns centímetros acima do joelho. Lutei comigo para não pregar os olhos em suas coxas. Consegui resistir e fugi.
O tempo passou. Também passou o período em que o Ferroviário de Nacala era o único clube que entrava, amiúde, nas disputas nacionais. Mais tarde surgiu o Desportivo de Nacala. Coincidência ou não, a partir daí a balburdia chegou àquela região. Assim, nasceu uma ilha chamada Nacala.
A ilha de políticas futebolísticas próprias, onde os treinadores não são comandantes. Foi nesse instante que conheci os verdadeiros nacalenses quando de futebol se tratasse. Muitos amigos que foram escolhidos para lá jogar, entre outros para a área de treinador, contaram-me história de arrepiar o pêlo. Uns diziam, no princípio, que se entusiasmavam com aquela forma diferente de estar dos nacalenses. A pressão, por um lado, estimulava a vontade de ganhar, mesmo com orçamentos baixos. Todavia, com o passar do tempo perceberam que a realidade era incomum no futebol.

Leia mais...