Orlando Conde e Gil Guiamba eram o sal e a pimenta no futebol

SAUDADES QUE O TEMPO LEVOU

 

Sei que o assunto que abordo hoje é controverso, susceptível de provocar calorosas discussões, ideias paralelamente infinitas, mas sinto-me à vontade de o zurzir, porque acompanhei, primeiro como simples espectador e depois como jornalista desportivo, o desfile dos primeiros pontas-de-lança que o país teve no pós-independência nacional.

 

De entre uma lista enorme daqueles que actuaram nessa posição, quero, aqui e agora, fazer uma pequena triagem para facilitar a escolha, a minha escolha, respeitando sempre a opinião dos outros, dentro do pluralismo de ideias que sempre defendi.

Nessa triagem que fiz, ficam, sem prejuízo para os outros, sem querer passar um atestado de menoridade a tantos outros que jogaram na delicada área, os seguintes:

Orlando Conde, Gil Guiamba, Ângelo Jerónimo, Miguel, Cossa, Sitóe, Luís Siquice, João Howana, Lucas Barrarijo, Brás, Ramos, Nando, Geraldo Conde, Jordão, Nico, Adelino, Chiquinho Conde, Arnaldo Howana, Tico-Tico e Dário Monteiro.

Todos eles, nas suas respectivas épocas, foram pontas-de-lança de elevada qualidade de execução, e o denominador comum que eles tinham era o engodo pela baliza.

Sei que a maioria da nossa juventude não tem a culpa de ter nascido mais tarde, não acompanhou as carreiras de jogadores como Sitóe, Cossa, Orlando Conde, Gil Guiamba, Miguel, Luís Siquice, João Howana, Lucas Barrarijo e outros, mas de certeza já ouviu ou leu algo deles como se ouve e se lê de Eusébio, Matateu, Pelé, Ronaldo, o brasileiro, e não o português, o liberiano George Weah e o francês Michael Platini, etc., etc.

Os mais velhos recordam-se das cavalgadas de Sitóe, do seu jogo de cabeça, dos seus portentosos remates; lembram-se de Cossa, o tal dos cinco golos ao Lesotho e dois contra os Camarões, do seu jogo aéreo, da capacidade de rematar com os dois pés; lembram-se de Miguel, o valoroso ponta-de-lança do Textáfrica, a jogar de cabeça, com boa impulsão e sentido de desmarcação na aérea.

Lembram-se de Luís Siquice, dos seus tiros de canhão e que uma lesão o impediu de realizar uma grande carreira; lembram-se de possante, rematador e cabeceador Ângelo Jerónimo, que era uma espécie de bandeira do Textáfrica, hoje presidente da Associação de Futebol de Manica; lembram-se de João Honwana, um terror para os guarda-redes, lembram-se de Ramos e Geraldo Conde, o primeiro ao serviço do Ferroviário de Maputo, o segundo jogando pelo Maxaquene, que fizeram furor na década 80/90. Todos eles eram idolatrados, eram de referência, porque faziam diferença em termos comparativos e competitivos nos jogos das suas equipas.

Num passado não muito longínquo tivemos outros pontas-de-lança também de não se brincar com eles na grande aérea.

Falo de Jordão, Adelino, Nico, Chiquinho Conde, Arnaldo Howana, Tico-Tico e Dário Monteiro. A qualidade destes jogadores ainda é recordada e até hoje ainda não surgiu um que se assemelhe a eles ou que se iguale a eles. Foram notáveis. Nico, o danger man, ao serviço do Matchedje, era também um terror para os guarda-redes, Chiquinho Conde fez furor no Palmeiras da Beira, veio a Maputo representar o Maxaquene e era, de facto, o melhor jogador do país quando foi vendido por 160 mil dólares ao Belenenses de Portugal, em 1987, naquilo que foi oabrir de portas para o exterior. Na Selecção Nacional foi o que toda a agente ainda se recorda de Chiquinho Conde. Capitão, líder, ponta-de-lança que marcava golos, que tinha arranques demolidores, uma velocidade estonteante e uma capacidade de drible que trocava os olhos aos adversários.

Arnaldo Howana, muito do reinado do Costa do Sol foi feito graças a este jogador, juntamente com Riquito, que, como ponta-de-lança, era um cabeceador, rematador e finalizador.

Tico-Tico e Dário Monteiro fizeram a diferença no Desportivo, embora em épocas diferentes, e encontraram-se também na Selecção Nacional de Futebol. Os golos eram com eles, tanto nos alvi-negros, como nos Mambas.

Sei que não há unanimidade, sei que haverá um conflito de gerações, porque há quem diga ou defenda que não se pode comparar grandezas que não sejam da mesma época, que os jogadores não são iguais e nem podem igualizar-se

Eu não subscrevo a tese que alinha pelo mesmo diapasão de escolher o melhor entre Eusébio e Cristiano Ronaldo, entre Pelé e Romário ou entre Ronaldo e Neymar, pois actuaram em épocas e contextos diferentes, mas, entre nós, dos vários ponta-de-lança que actuaram depois da independência nacional, tiro “chapéu” a:

 Orlando Conde e Gil Guiamba.

 Orlando Conde tinha boa impulsão e um jogo de cabeça extraordinário na sua eficácia, rematava com os dois pés e era um goleador nato.

Gil Guiamba, por sua vez, era elegante a correr, a driblar, a desmarcar-se, a fazer golos e era possuidor de uma técnica de execução notável. Aquele golo contra os Camarões, em que vencemos por 3-0, foi o epíteto daquilo que foi Gil Guiamba como ponta-de-lança.

Qual é a equipa que hoje, entre nós, não gostaria de ter nas suas fileiras estes dois ilustres jogadores acima referenciados?

Falei sobre o assunto com vários treinadores, jogadores e dirigentes da época. Há divergências, há opiniões que não são unânimes, há referências que se aproximam umas das outras.

– Oh, Funjua, ainda não nos disse quem foi, na sua opinião, o melhor ponta-de-lança.

O melhor? Para mim, foram os dois, Orlando Conde e Gil Guiamba.

Respeito a opinião de quem indicar Cossa, Luís Siquice, Geraldo Conde, Chiquinho Conde, Tico-Tico ou Dário Monteiro, mas, para mim, Orlando Conde e Gil Guiamba eram fenomenais, foram os melhores.

São saudades que o tempo levou, lembrar aquela gente que fez diferença no nosso futebol. 

Boavida Funjua