A maior enchente de todos os tempos na Machava!

– No jogo da sua inauguração, que envolveu as selecções de Portugal e Brasil;

– Os confrontos da Selecção Nacional de Futebol, com destaque frente à Tanzania, Zâmbia, Camarões, Angola, Guine Conacry, Líbia e Malawi;

– Os jogos envolvendo, alternadamente, as equipas do Costa do Sol, Ferroviário de Maputo, Maxaquene, Desportivo e Matchedje, no auge dos campeonatos nacionais de futebol, envolvendo 12 clubes no sistema clássico de toldos contra todos, em duas voltas;

– Os festivais de Toto Notícias, que envolviam o campeão nacional e os mais pontuados pela Redacção da secção desportiva do Notícias;

– A missa orientada pelo Papa João Paulo II.

Todos estes acontecimentos foram, de facto, realizados no Estádio da Machava, a catedral do nosso futebol e de grandes eventos.

Machava era o único campo na altura – até 2011 – que tinha a capacidade de albergar mais de 35 mil espectadores.

Então: qual foi o jogo ou acontecimento político, desportivo ou musical que bate, até hoje, o recorde de enchente de todos os tempos?

Falando especialmente no domínio desportivo, reduzindo as hipóteses de escolha da maior enchente, encontramos:

– Moçambique – Zâmbia

– Moçambique – Camarões

– Moçambique – Angola

– Moçambique – Guiné Conacry

– Moçambique – Malawi

Com respeito a todas outras opiniões, a todos outros cálculos e estimativas, o Estádio da Machava ficou a transbordar de gente no memorável jogo entre Moçambique e Malawi, em que ganhámos por 2-1, com o segundo golo a ser marcado por Tico-Tico ao apagar das luzes e que garantiu a qualificação de Moçambique para o CAN e mandou o Malawi para o inferno da frustração total. 

No final desse jogo, o seleccionador nacional na altura, José Arnaldo Salvado, sobejamente emocionado, chamou aos jornalistas de “Cambada de filhos da p***”. O jogo qualificou Moçambique para o seu 2.° CAN, em Burkina Faso, e estima-se que estavam presentes na Machava cerca de 45 mil pessoas.

 Mas a pergunta é:

– Terá sido esse jogo que bateu ou bate até hoje o recorde de enchentes no Estádio da Machava?

Não! Houve um em que o protagonista da parte de Moçambique foi o dono do campo, o Ferroviário de Maputo.

Recordemos o tal jogo.

Em 1992, o Ferroviário de Maputo estava a disputar a Taça CAF e havia eliminado o Lesotho, as equipas da Sagrada Esperança de Angola e o Gagnoa da Costa do Marfim.

Foi a Kampala jogar com o Nakivubu Sports Villa, onde empatou a uma bola, partida que contava para os quartos-de-final da Taça CAF (1ª mão).

Então, a eliminatória que dava acesso às meias-finais seria decidida no Estádio da Machava.

O jogo foi largamente mediatizado de tal forma que mobilizou centenas e centenas de espectadores, incluindo aqueles que não morriam de “amores” pelo Ferroviário.

O Estádio da Machava, com a “fome” que existia na altura de ver futebol, ficou superlotado, com mais de 35 mil espectadores.

Às 14.45, 15 minutos da hora marcada para o início do jogo, acontece o menos esperado:

– A equipa de arbitragem não havia desembarcado em Maputo.

– Consultas aqui e acolá entre as duas equipas e o comissário da CAF, decidiu-se fretar uma avioneta e trazer os árbitros da Swazilândia.

– Quando os árbitros chegaram ao Estádio da Machava já era quase noite;

– Ensaiou-se a iluminação e duas torres obedeciam, deixando o Estádio sem iluminação suficiente para a realização do jogo.

Consultas entre as partes envolvidas, acabou sendo anunciado que o jogo estava adiado para o dia seguinte, segunda-feira, às 15.00 horas, e que as portas estariam abertas para quem quisesse ver esse jogo.

Mesmo sendo dia de trabalho, as pessoas despegaram dos seus locais de trabalho às 12.00, muitos estudantes não foram às aulas e às 14.00 horas o Estádio da Machava estava totalmente preenchido.

Mais:

Pessoas penduradas nos murros, nos postes de energia, setadas nas pistas de atletismo e ciclismo, apertadinhas nas bancadas, nos camarotes e sala VIP tornavam o ambiente efervescente. As estimativas, os cálculos dos jornalistas apontaram para mais de 50 mil pessoas (cinquenta mil pessoas!). Frente a frente estava o Ferroviário de Maputo e o Nakivubu Sports Villa.

Depois de um jogo renhido, as duas equipas empataram a uma bola, o mesmo resultado obtido no jogo da 1ª mão em Kampala. Para o desempate, recordou-se a marcação de grandes penalidades. Dois remates direccionados de Nhaca e Danito Cuta fizeram esfumar-se a esperança do Ferroviário de Maputo de chegar às meias-finais.

É este jogo que detém o recorde de enchente de todos os tempos na Machava.

Em mais de 45 anos a acompanhar e a assistir ao futebol, primeiro como simples espectador e 36 anos como jornalista, nunca vi o Estádio da Machava como naquele dia do célebre jogo Ferroviário de Maputo-Nakivubu Sports Villa, realizado numa segunda-feira pelas circunstâncias a que atrás me referi.

– Felizmente não aconteceu nenhuma tragédia, não foram reportados mortos, feridos nem acidentes de viação na ida e regresso ao estádio.

São saudades que o tempo levou…

Boavida Funjua