Senhores, organizem-se!

Linha de passe

 

O último absurdo protagonizado pelos dirigentes dos clubes do Moçambola foi a manifestação do seu desagrado pela separação do sorteio da maior festa do nosso futebol da habitual assembleia-geral, que geralmente apresenta, discute as contas dos últimos exercícios e aprova o orçamento para a época seguinte.

Na óptica dos dirigentes, o sorteio e a assembleia-geral devem “casar-se” sempre, ou seja, a cerimónia do sorteio é para eles a cereja no topo do bolo, devendo acontecer logo após a magna cerimónia, o que, quanto a mim, demonstra estarmos anos-luz do que acontece a outros níveis. A incrível manifestação demoveu a ideia de Ananias Coana e do seu elenco de organizar o sorteio após o final do campeonato conquistado pela União Desportiva do Songo, como, aliás, acontecera em Dezembro de 2016 quando os clubes foram de férias já conhecendo os seus adversários e os percursos possíveis no campeonato.

Entristeceu-me ainda mais ter apercebido que os treinadores, os mais interessados em planificar a sua época, socorrendo-se desse calendário, fiquem mudos, se calhar porque a esmagadora maioria, como fiz referência numa edição anterior, não é contratada à base de competência ou das suas capacidades e domínios pelos conteúdos de treino, acabando por se sujeitar a situações como esta.

Até prova em contrário, continuarei a afirmar que os nossos treinadores são contratados por determinados clubes por amiguismo, troca de favores, hipocrisia e bajulação, estas duas últimas religiões que têm conquistado cada vez mais seguidores e espaço na nossa sociedade.

Também considero que a Federação (FMF), a Liga Moçambicana de Futebol (LMF), as associações provinciais (o que fazem as associações provinciais de futebol para a seu sustento, se as provas das camadas de formação que organizam, os torneios de início de época dos seniores não geram grandes receitas?) deviam organizar-se melhor para responderem aos apelos de desenvolvimento de forma a encarar melhor os desafios que o povo quer ver realizados, designadamente, um progresso que resulte em qualificações sustentadas e nunca por mero acaso ou de percursos de felizes coincidências.

Não se pode desenvolver o futebol e pensar numa estrutura melhor se continuamos a ter e a criar dirigentes que não estão em condições de gerir uma simples logística para garantir as viagens das suas equipas no Moçambola.

Chegou-me aos ouvidos que a ideia de transferir a logística da LMF para os clubes não foi bem recebida pelos dirigentes dos nossos clubes, se calhar porque receia-se que, se tal acontecesse, efectivamente, algumas equipas não conseguiriam viajar para cumprir os seus jogos, umas por desleixo e outras por incompetência dos seus directores.

Não me espantará se um dia os clubes solicitarem à LMF serviços para levar os talheres à boca dos atletas e dos dirigentes que acompanham as delegações, muitas vezes com a missão de cumprir mais um passeio.

Já se falou por diversas vezes que os clubes não fazem absolutamente nada para rentabilizar o que têm (para os que têm algo). Não se faz nenhum exercício para produzir dinheiro porque não há pensadores nos clubes. Alguns com maior orçamento confundem o “bolo” que recebem das empresas integradoras, patrocinadores “fixos”, ou das empresas que os geraram com organização e competência. O dinheiro facilita-lhes os movimentos, mas nunca lhes confere faculdades para, a partir desse dinheiro, criar para ganhar dinheiro. Estamos longe de ter clubes que funcionem como empresas, de facto, como se chegou a pretender.

Infelizmente continua difícil acreditar que os clubes, com os dirigentes que têm, possam gerar ideias e renda para o seu próprio sustento.

A outra questão que não quer calar é: o que seria desses clubes de maior orçamento se as empresas que os suportam fechassem a torneira?

Peço, uma vez mais, aos dirigentes para que levem a mão à consciência e reflictam sobre o que descrevo aqui, porque a realidade apresentada pelo país não é encorajadora para quem vai continuar como simples receptor.