Um jogo impróprio em campo impróprio

Num campo impróprio para a prática de bom futebol, em face do estado bastante alagadiço em que se encontrava, chegando mesmo a pôr em dúvida a realização do encontro, os moçambicanos conseguiram a reviravolta com dois golos de Mário, um em cada uma das partes mas não sem que tenham sofrido a valer, mesmo beneficiando do imenso apoio vindo das bancadas.

O AZAM chegou a pôr o adversário e o público em sentido, sobretudo nos lances de bola parada e nos pontapés de canto, em particular. Foi com o coração nas mãos que se chegou aos 90+4 minutos.

Este jogo da 2ª mão da pré-eliminatória acabou por ficar seriamente condicionado pelo estado do tempo que se fez sentir na Beira e arredores não só ontem, dia da sua realização, mas nos dias que o antecederam, já que as duas equipas não puderam realizar os treinos que desejavam porque o campo ou os campos, os dois do Ferroviário na Beira, andaram alagados e só quando a chuva dava alguma trégua isso podia acontecer.

Já à hora do jogo a chuva parara mas o campo apresentava-se literalmente “inundado”, com várias poças em várias zonas, o que logo à partida prenunciava um jogo sofrido para os jogadores.

Quando eram exactamente 15.00 horas começaram as hostilidades. Saiu a equipa forasteira, que logo chegou com perigo à área contrária, com a bola a ser rematada mas por cima da baliza.

O Ferroviário reagiu logo e chegou igualmente à baliza contrária mas sem qualquer sinal de perigo.

Afinal o melhor estava a caminho: aos cinco minutos Reinildo recebe um passe de Nelito e cruza para a área onde Mário, bem posicionado, recebe a bola e tem todo o tempo do mundo para com maior frieza colocar a bola no fundo da baliza tanzaniana.

O público entrou então no jogo e começou verdadeiramente a puxar pela sua equipa, galvanizando assim os jogadores. Só que o AZAM FC começou a marcar presença em campo. Os seus dois homens mais adiantados, Brian e Kippre destroçavam a defesa locomotiva sempre que iniciassem as suas autênticas cavalgadas. Que o digam Butana e Edson! Numa delas Edson teve mesmo que recorrer à falta, ficando por isso com cartão amarelo.

O Ferroviário quase se encolheu, entregando a iniciativa do jogo ao adversário, já que Coutinho, ao meio campo, que tinha a missão de centralizar as acções da sua equipa, estava muito preso nos seus movimentos e com o estado do piso não conseguia segurar o jogo e por ali eram organizadas e passavam as investidas contrárias.

O AZAM mandava, por essas alturas, mesmo com o estado do piso. Ganhava no um para um. Provocava livres que, marcados, eram bastante venenosos e cantos - em 25 minutos foram pelo quatro, que levavam verdadeiro pânico à baliza contrária.

Valiam, por essas alturas, as presenças sacrificadas de Cufa e do próprio guarda-redes Willard, porque realmente o AZAM era muito mais forte e ameaçava constantemente o Ferroviário.

Até ao intervalo a equipa moçambicana estava, de facto, quase perdida em campo e não conseguia organizar qualquer jogada com cabeça, tronco e membros, pelo que o apito do zambiano para o descanso veio mesmo quando o Ferroviário estava a precisar, tanto mais que começavam a cair alguns chuviscos.

EQUILIBRAR, MATAR

E VOLTAR A SOFRER

Como dissemos, o Ferroviário terminou a primeira parte quase de rastos, o que levava a perspectivar uma segunda parte mais sofrida, porque a eliminatória estava empatada e o AZAM ia pisar terrenos menos alagados do campo.

Mas não foi exactamente isso que aconteceu e uma das principais razões para essa mudança foi que Coutinho apareceu no jogo a fechar a zona central do terreno e a organizar as jogadas da sua equipa. Foi realmente fundamental esta nova disposição porque o AZAM, que terminara a primeira parte em alta, já não era o mesmo e aí os donos da casa seguraram mais o jogo a partir do seu meio campo.

Foi assim que Mário voltou a dispor de uma oportunidade de marcar mas teve a atenta oposição do guarda-redes contrário, embora sob alguma dificuldade.

Mas o AZAM, mercê de algumas alterações no seu xadrez, iniciava uma nova fase das suas investidas, apertando o cerco ao adversário.

Voltava a ser um “terror” nos lances de bola para, sobretudo nos cantos. De cada vez que o árbitro assinalasse um canto até o público nas bancadas levava as mãos à cabeça, muito por culpa dos pontapés do seu defesa esquerdo Mores, um exímio executante deste tipo de lances, que tanto de um lado como do outro lança chamas para a área contrária.

Por três ou quatro ocasiões o golo esteve iminente, tendo valido a atenção e destreza do guarda-redes Willard.

Num destes lances, é preciso dizer, o AZAM bem podia ter marcado qualquer golo.

Só que na sequência de uma dessas situações de muito embalo a equipa tanzaniana quase levou um golpe quando a bola sobrou para Coutinho no miolo do terreno, que lançou Mário em profundidade.

O “super” galgou terreno, ultrapassou um contrário e quando já só avistava o guarda-redes contrário pela frente a bola ficou retida numa poça dando tempo de recuperação ao defensor que tinha ficado batido. Foi uma grande perdida!

Por essas alturas o Ferroviário respirava outros ares e Henry chegou a ter um golo nos pés mas, a passe de Maninho, quis fazer um golo bonito de calcanhar e a bola ficou entre os defensores adversários.

Logo a seguir foi o segundo golo da contenda. Nova combinação da dupla Nelito-Mário, com o “super”, mais uma de pé esquerdo, a rematar cruzado para o canto inferior esquerdo da baliza de um desamparado guarda-redes que dá pelo nome de Mwadin.

Escusado será dizer que foi uma autêntica explosão no estádio, com abraços e aplausos infindáveis.

Mas todos estavam conscientes de que não era o fim porque 2-0 era um resultado traiçoeiro, uma vez que qualquer golo do AZAM era o ruir do sonho da passagem.

COM O CORAÇÃO NAS MÃOS

Como que para refrescar a sua equipa, Lucas Barrarijo fez entrar Mandava para o lugar do esgotado Henry, depois Djei para o de Nelito, este último muito ovacionado à saída pelo seu desempenho nos dois golos da equipa.

Foram mudanças que visavam sobretudo conferir uma maior consistência à zona do meio campo o que, de facto, foi conseguido, sobretudo pelo jovem Mandava, que em Dar-es-Salaam aliás tinha sido titular.

Este terá sido o período em que os donos da casa e o seu incansável público jogaram verdadeiramente com o coração nas mãos porque o AZAM acelerava sempre que tivesse espaço e continuava perigosíssimo nos lances de bola parada, lances verdadeiramente de cortar a respiração, impróprios para cardíacos.

Nas bancadas começaram a se ouvir os habituais “está na hora” mas ainda havia tempo para jogar e em campo tudo podia acontecer só que o Ferroviário foi se defendendo com unhas e dentes até ao final.

O árbitro ainda deu quatro minutos de compensação mas em termos de resultado mais nada se alterou. No fim os naturais festejos de uns e o desapontamento de outros. Mas o futebol é assim mesmo.

Em nosso entender, o jogo de ontem foi marcado pelo estado do piso. As duas equipas mostraram que têm potencial para num melhor campo apresentar um melhor futebol.

Uma palavra de apreço a esta equipa tanzaniana, que não perdeu a eliminatória por ser inferior ao seu adversário. Podia muito bem ter ganho o jogo e a eliminatória mas, como dissemos, o futebol é também isto.

CABINAS 

Agradecemos ao público

- Victor Matine, técnico-adjunto do Ferroviário

Agradecemos imenso ao público que esteve aqui hoje e que nos apoiou do princípio ao fim para conseguirmos esta vitória para a qual tivemos muita garra e atitude mesmo perante todas as adversidades. Provámos, mais uma vez, que temos equipa”.

Faltou-nos sorte

-Ibrahim Chikondo, treinador-adjunto do AZAM

Tivemos muitas oportunidades para matarmos o jogo e a eliminatória mas não as aproveitámos. O Ferroviário soube fazer isso e ganhou. É só isso o que posso dizer.

OK: Lucas Barrarijo

Depois dos sustos da primeira parte, em que a sua equipa viu-se e desejou-se para travar as incursões dos avançados do AZAM, Lucas teve mérito de conseguir estancar a “sangria” a partir da zona intermediária, onde tudo era, efectivamente, cozinhado por parte do adversário. Daí foi partir à procura do golo da vitória na eliminatória, que aconteceu com alguma naturalidade. Aliás, ainda houve uma bola no poste que podia ter sentenciado o desafio aliviado o sofrimento pelo qual teve que passar até ao fim dos 90+4 minutos.

KO: Joseph Omog

O AZAM terminou a primeira parte deste jogo em alta. Se calhar se se jogassem mais alguns minutos podia ter marcado. Esperava-se, por conseguinte, pela continuação dessa postura na segunda parte, tanto mais que a equipa passaria a jogar a atacar numa zona menos alagada do terreno. Nada disso, o treinador camaronês viu-se num colete-de-forças do qual só reagiu verdadeiramente quando já tinha sofrido o segundo golo.

FICHA TÉCNICA

Assistência: cerca de 10 mil espectadores

Árbitro: Wisdon Chewe, auxiliado por Francis Chichekanu e Romau Kasengele (todos da Zâmbia); quarto árbitro: Stanley Hashina, também da Zâmbia

Comissário Técnico: Tcharles Kapatia, do Malawi

Acção disciplinar: cartões amarelos para Edson, do Ferroviário, e Aggry, do AZAM

Golos: Mário, aos 5 e 60 minutos.

FERROVIÁRIO DA BEIRA, 2

Willard

Butana

Cufa

Emídio

Edson

Coutinho

Henry (56’)

Maninho

Nelito (86’)

Reinildo

Mário

Suplentes utilizados

Mandava (56’)

Djei (86’)

Suplentes não utilizados

Luís

Kiki

Gildo

Tinho

Treinador: Lucas Barrarijo

AZAM FC, 0

Aly

David

Mores

Said

Nhon

Kamiss (59’)

Michael

Salim

Himid

Brian (76’)

Kipre

Suplentes utilizados

John (59’)

Khon (76’)

Suplentes não utilizados

Salum

Malika

Jabir

Abdala

Ibrahim

Treinador:Joseph Omog

Texto de Eliseu Bento

Fotos de Mac e António Ração Luís