Das reviravoltas à despedida de Dário Khan

Poucas eram as esperanças de passar aos quartos-de-final do CAN Interno, daí que é difícil considerar a eliminação como sendo propriamente um fracasso. A selecção estava num grupo difícil (com África do Sul, Nigéria e Mali) e foi a uma competição deste nível vinda de um defeso de dois meses, daí que estava sem ritmo.

Mesmo assim, cair na prova como caiu não pode deixar ninguém despreocupado, porque uma equipa que entra a vencer em todos os jogos e não consegue controlar os níveis de ansiedade para evitar as reviravoltas tem de ser analisada.

Entre os inúmeros argumentos que têm sido apresentados para o afastamento precoce do CAN Interno, assim como para as reviravoltas, da forma como foram, estão a falta de ritmo e fraco nível de concentração dos nossos jogadores, sendo que depois de marcar levavam bastante tempo para se concentrar.

talento VS imaturidade

É certo que o rescaldo da participação no CAN Interno indica três jogos, igual número de derrotas, quatro golos marcados e nove sofridos. Mas se do mal há o menor, neste caso o menor pode ser o facto de, pela primeira vez, a selecção ter conseguido marcar em todos os jogos, ao todo foram quatro. Os mesmos golos que a outra geração havia marcado em 12 partidas dos CAN (quatro presenças).

Os três jogos mostraram que o talento está lá, mas a imaturidade, a que se juntou a falta de ritmo competitivo, uma vez que esta competição aconteceu numa altura do defeso no país (Moçambola parara há dois meses), foi o principal ponto negativo da Selecção Nacional.

O positivo é que se viu que há capacidade, os jogadores demonstraram ter muita vontade e muito querer, mas foram traídos pela quebra física, face à ausência de competição, assim como pelos fracos níveis de concentração.

O seleccionador nacional da Nigéria, Stephen Keshi, disse mesmo que esta equipa tem qualidade, jogadores tecnicistas, mas sublinhou: “Pareceu-me que psicologicamente é fraca”. Disse numa conversa informal antes de perguntar: “Onde está o psicólogo da vossa selecção?”

Pelo mesmo diapasão praticamente alinhou o técnico do Mali, Djibril Drame, que chegou mesmo a dizer: “Já sabíamos como é que Moçambique se comportava: começa bem, mas termina mal. Por isso sempre acreditámos que poderíamos vencê-lo”

Ao contrário das edições do CAN, no CHAN Moçambique até chegou a dar indicações de ser uma equipa que poderia conseguir melhores resultados.

É por isso que fica claro que se deve continuar a trabalhar para reduzir as falhas que impossibilitaram a selecção de progredir, como, aliás, reconheceu João Chissano, seleccionador nacional.

- Ficou claro quenão somos tão fracos, fez questão de sublinhar João Chissano.

Durante alguns jogos, notou-se que a produção poderia ter sido melhor, sobretudo os níveis de concentração em momentos cruciais. Isso era notório principalmente no sector mais recuado da equipa.

Arbitragem TAMBÉM prejudicou

À inexperiência, imaturidade e falta de ritmo, que ficaram evidentes, juntou-se ainda ao facto de os árbitros terem piorado tudo com actuações que prejudicaram sobremaneira nos primeiros dois jogos.

- As arbitragens prejudicaram muito. Em momentos cruciais dos jogos houve decisões contra Moçambique que mudaram o rumo das partidas.

A má actuação dos homens do apito ficou clara para todos e inclusive a CAF acabou mesmo por retirar da competição os árbitros que dirigiram os primeiros dois jogos da competição.

Analisando os três jogos efectuados, o primeiro, frente à África do Sul, foi o menos conseguido, mas no segundo, contra a Nigéria, já se notava algum valor, e o último, frente ao Mali, só não foi ainda melhor porque João Mazive vendeu o projecto. 

Soarito, kito, dário KHAN

e chico ii FORAM totalistas

Dos 23 atletas convocados, João Chissano utilizou 18 atletas, nomeadamente Soarito, Monis, Dário Khan, Chico II, Diogo, Miro, Kito, Josemar, Manuelito, Alvarito, Sonito, Mário, Maninho, Lanito, Belito, Imo, João Mazive e Dito.

Não saíram do banco durante a prova Pinto, Victor, Nelito, Chico I e Gabito.

Dos 18 atletas utilizados, quatro foram totalistas e cumpriram 270 minutos, nomeadamente Soarito, Chico II, Dário Khan e Kito. 

Quanto a nós, alguns jogadores merecem um incondicional abraço. O capitão Dário Khan não só marcou um golo que corre o mundo com milhares de visualizações na Internet, mas também, e acima de tudo, foi um verdadeiro patrão de Moçambique. Diogo marcou dois golos, um dos quais entra na história como sendo o primeiro da 3.ª edição do CHAN. Kito esteve em grande plano na prova, completando o trio eleito por nós como sendo o melhor de Moçambique.

Dário e a pretensão

de deixar os mambas

Entretanto, o CHAN terminou com a surpreendente pretensão de o capitão Dário Khan deixar de vestir a camisola dos “Mambas” e abrir espaço para os mais novos. Um anúncio que surge depois de ter feito uma campanha bastante assinalável, que fez com que saísse de besta do CAN-2010 para  bestial do CHAN-2014.

Essa pretensão está sendo analisada, pois é intenção da equipa técnica contar com o central de 32 anos na campanha para o CAN-2015, daí que ainda não se debruçou seriamente sobre o assunto. Aliás, até o presidente da FMF, Feizal Sidat, já conversou com Dário para que permaneça nos “Mambas” pelo menos até ao CAN-2015.

Lembre-se que Dário se estreou pela selecção de Moçambique a nível dos sub-17 ainda com 16 anos.

PENSANDO NO CAN-2015 

Jogos particulares com

adversários de “verdade”

É certo que ficou claro que esta equipa - como outras que já passaram - tem jogadores com alguma qualidade, mas nota-se claramente a sua falta de ritmo, e não se admiti que se vá a uma competição desta envergadura com uma equipa sem ritmo. Há que procurar, não sabemos onde, meios para permitir que estes jovens realizem mais jogos, sob pena de desaparecerem sem ter passado de promissores.

Para já, uma coisa é certa: já se sabe que João Chissano continuará a dirigir os “Mambas” pelo menos até ao final da campanha de qualificação para o CAN-2015 (Marrocos), mas falta saber que programa concreto existe para dar ritmo a estes jogadores, porque pelo menos um terço dos utilizados no CHAN pode fazer parte.

Que não nos venham novamente com amigáveis com a Suazilândia - só porque está mais próximo e disponível. Há que procurar adversários que obriguem ou que moralizem os jogadores a se entregarem como se pretende, tal como vimos diante da Nigéria, em que fizeram da partida a última das suas vidas.

Fala-se do Irão, apurado para o Mundial de Brasil, assim como da Argélia, o que se espera é que tais compromissos se concretizem.

Não somos tão fracos

como sempre pensamos

- João Chissano, seleccionador nacional

O seleccionador nacional de Moçambique, João Chissano, avaliou a participação como tendo sido positiva porque mostrou que a equipa pode ombrear com os adversários doutro nível, mas também negativa porque em termos desportivos não se conseguiu melhor.

Para ele, Moçambique tem de melhorar a preparação e organização para evitar que sempre vá às competições só para participar.

- Os jogadores ombrearam com outro tipo de jogadores, e sentimos que podíamos disputar qualquer jogo “ela por ela”, como sói dizer. Concluímos que, na prática, não somos tão fracos como sempre pensamos. Estivemos num grupo que foi considerado como sendo da morte, o que serviu de factor de motivação para que os jogadores lutassem até às últimas consequências. Infelizmente não conseguimos vencer. A negativa foi não termos alcançado o principal objectivo, que era passar à outra fase. 

Chissano diz ainda que é necessária uma melhor organização e planificação para compromissos futuros.

- Precisamos de maior organização em todos os capítulos, para que haja preparação atempada e com toda a gente envolvida. Se quisermos altos voos, temos de trabalhar afincadamente para o conseguir.

Com a renovação feita, o seleccionador nacional já pensa no CAN-2015 e acredita que com melhor preparação se pode chegar lá e, para já, aguarda o sorteio.

-Se quisermos resultados ao mais alto nível, temos de trabalhar todos duma forma profissional, não só a Federação, mas sim todos: os atletas, treinadores e todos os componentes. Temos de ter objectivo comum para tentarmos alcançar o que queremos, que é chegar ao CAN-2015. Maior organização para ter objectivos comuns e trabalharmos todos afincadamente nisso. Agora estamos à espera do sorteio para melhor programarmos a fase de qualificação.

Cem mil dólares é o prémio

pelo quarto lugar no Grupo A

A Selecção Nacional de Moçambique, que ocupou a quarta e última posição da fase de grupos (A) do CHAN, vai ser consolada com o prémio de 100 mil dólares americanos (cerca de 3.000.000.00MT), tal como decidiu a Confederação Africana de Futebol (CAF).

O organismo que superintende o futebol africano indica que ao vencedor da terceira edição do Campeonato Africano das Nações (CHAN) caberá a soma de 750 mil dólares americanos, e 400 mil dólares americanos para o vice-campeão.
As equipas que terminam na terceira e quartas posições do torneio obterão 250 mil dólares americanos.
As selecções classificadas no terceiro lugar de cada grupo obterão 125 mil dólares americanos e as equipas que ocupam a quarta e última posição vão consolar-se com 100 mil dólares americanos.

Análise de Atanásio Zandamela

Fotos de Arquivo