E ENTREVISTA

Não fui opositor de ninguém

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O mandato da Direcção da Associação de Futebol da Cidade de Maputo (AFCM) chegou ao fim e desafio convidou Victor Miguel, presidente daquele organismo, a fazer o balanço do mesmo, que aos olhos de todos foi sempre uma pedra no sapato ao elenco chefiado por Feizal Sidat na Federação Moçambicana de Futebol (FMF). 

O segundo mandado de Victor Miguel à frente da Associação de Futebol da Cidade de Maputo (AFCM) terminou e por força dos estatutos não vai poder se recandidatar. Neste momento Filipe Budula, que fez parte do elenco de Miguel, é um dos candidatos à presidência do órgão que dirige os destinos do futebol da Cidade das Acácias. A Assembleia-Geral está prevista para os dias 24 e 25 do mês corrente.

desafio convidou Victor Miguel a fazer o balanço do período em que dirigiu a AFCM, considerando de positivo o trabalho desenvolvido, tendo em conta o cumprimento do que estava plasmado no seu manifesto eleitoral, sendo a formação o alvo principal, onde por exemplo foram alterados os modelos de disputa nos jogos dos infantis de modo a possibilitar que os meninos tivessem mais contacto com a bola, jogando em campos mais reduzidos. Miguel acrescenta que no período em que foi presidente da AFCM foram formados cerca de seiscentos treinadores de nível básico (1 e 2), mas também foram formados árbitros de futebol de 11 e de futsal, mas não conseguiram ser felizes no curso destinado aos massagistas.

 – Considero de positivo o trabalho que fizemos, porque o nosso objectivo, em primeiro lugar, passava por reorganizar a associação de modo que fosse digna do estatuto que tem. Como todos sabem, a AFCM é a maior de Moçambique e que representa a capital do país. Hoje a associação está diferente daquela que encontrámos. A outra grande frente que tinha é a questão da formação. Demos a primazia à formação de jogadores, concretamente as categorias de infantis e iniciados, que foi crescendo de ano para ano. E se forem a reparar nos planteis do país, nos últimos tempos, dois são oriundos de Maputo, tanto no Moçambola e nos restantes campeonatos provinciais. Esse facto mostra claramente que conseguimos alcançar os nossos objectivos, disse o interlocutor do desafio fazendo o balanço do tempo que dirigiu a associação da capital do país.

A dado momento da conversa o nosso entrevistado afirmou que a associação dirigida por si não estava a trabalhar a pensar em superar os que passaram pela direcção, mas melhorar os aspectos que estavam a contribuir para o fraco desenvolvimento do futebol na cidade-capital.

– Penso que isso deve ser avaliado por quem está fora. Essas pessoas poderão dizer se conseguimos melhorar o futebol na cidade de Maputo ou não. Posso afirmar que sentimos ter conseguido alcançar com os nossos objectivos.

 

USARAM BOLETINS DE ÓBITO

PARA FALSIFICAÇÃO DE IDADES

 Victor Miguel acrescentou que um dos males que era importante debelar quando chegou à associação, embora ainda subsista, mas em pequena escala, é a falsificação das idades, considerando ser esse um dos grandes males do futebol moçambicano.

– É um mal que contribui para os maus resultados das nossas equipas principais e mesmo da Selecção Nacional. Debatemo-nos com situações, algumas das quais caricatas, em que os jogadores utilizavam documentos falsos. Chegámos a ver, inclusive, a utilização de uma certidão de óbito para falsificar a idade. Os falsificadores confundiram o tal documento com a certidão de nascimento porque o documento do boletim de óbito e de nascimento têm o mesmo formato, tamanho e cor, havendo a diferença apenas na designação, que ao invés de nascimento vem óbito. Tivemos também a situação de atletas que utilizavam documentos de irmãos que já tinham falecido. Estas situações foram movidas por dirigentes e treinadores.

Ainda na esteira da falsificação das idades dos atletas nas camadas de formação, Victor Miguel apontou o dedo em riste às direcções dos clubes que exigem resultados nesses escalões, obrigando os técnicos a encontrar resultados a qualquer preço.

– Alguns técnicos chegaram a dizer que as direcções exigiam resultados e com medo de serem corridos das equipas a solução foi encontrar atletas com idade superior para conseguir os tais resultados exigidos pelos seus directores. De uma forma indirecta, as direcções podem terem induzido a estas práticas. Mas é importante dizer que os casos foram reduzindo de ano para ano e ultimamente foram poucas as situações de falsificação das idades. Muitas vezes achamos que para não sermos confundidos e para não entrar em choque com os clubes nem prejudicar o atleta acabamos por ficar calados, mas chamamos atenção sobre a situação. O nosso desporto não se pode guiar dessa forma, lamentou.

 

NUNCA INVENTÁMOS NADA

 Durante o tempo que esteve à frente dos destinos do futebol da capital do país Victor Miguel foi considerado como grande opositor ao elenco chefiado por Feizal Sidat na Federação Moçambicana de Futebol (FMF). No entanto, o interlocutor do desafio não se assume como tal, considerando que a sua tarefa e da associação foi sempre de apontar o que estava mal para poder melhorar o desenvolvimento do futebol nacional.

– Não fui opositor de ninguém e muito menos da federação. Antes pelo contrário, aqueles que fazem oposição à federação são aqueles que ficam calados. Esses é que são a verdadeira oposição da federação. Apontámos coisas conforme as víamos, de concreto. Nunca inventámos nada. As nossas intervenções foram baseadas em factos. Ou seja, analisávamos os documentos que nos eram apresentados e a partir daí apontávamos os problemas. Isso não se pode ser considerado como oposição, esclareceu.

Miguel chega a dizer que a sua associação deu um grande contributo à federação dizendo o que não estava correcto, entendendo que fazer oposição tem em vista destronar a, b ou c, que garante nunca ter sido a intenção.

– Tenho a certeza que com as nossas intervenções a federação foi melhorando o seu desenvolvimento. Para nós uma federação de futebol é uma espécie de FIFA em miniatura, pois é quem pensa o futebol nacional. Por isso, deve ser um modelo a ser seguido. Infelizmente, isso não acontece em Moçambique e sendo assim não temos tido resultados positivos ao nível das selecções, esclareceu Miguel.

A cavaqueira com Victor Miguel fez perceber igualmente que a comunicação entre as associações e a federação não tem sido feita da melhor maneira, chegando o dirigente cessante a acusar o órgão máximo de não respeitar as hierarquias.

– A comunicação com os clubes deve ser feita através das respectivas associações. No entanto, a federação tem estado a manter a comunicação directa com os clubes. Só ficamos a saber de tudo através dos comunicados. Nunca concordamos com isso, queixou-se, lamentando a situação.

Não se ficando por aí, Victor Miguel disse que as associações têm beneficiado de apoios que deviam ser prestados pela FMF, limitando estas de realizar algumas actividades que seriam importantes para o desenvolvimento do futebol.

– A federação recebe apoios da FIFA para promover algumas actividades, mas eles não se fazem sentir. Por exemplo, o futebol feminino está quase a morrer porque não o incentivamos. Por isso ficamos a ver as outras selecções a brilhar em competições africanas e mundiais. Se os apoios existissem tenho a certeza que, dado que as nossas mulheres são talentosas, o futebol feminino iria voltar a ser o que era, queixou-se.

 

QUADRO COMPETITIVO NÃO É BOM

 O cessante presidente também falou daquela que tem sido a justificação do presidente da FMF quando se pronuncia dos maus resultados das selecções nacionais, ao referir que estes são resultantes do mau trabalho feito nos clubes.

– A federação busca os jogadores nos clubes para representar as selecções nacionais e sempre na óptica dos melhores, embora o tal melhor muitas vezes seja discutível, pois a selecção feita pelo senhor jornalista pode ser diferente daquela que é feita por mim ou pelos outros. O melhor lateral direito pode ser no meu entender o beltrano, mas para outros ser o sicrano. Isso acontece em todo o mundo. Para mim o problema das nossas selecções é outro: o quadro competitivo do nosso país. É preciso questionar quantos jogos fazem os nossos atletas ao longo do ano. Podemos também analisar as convocatórias diversificadas, o que pode dificultar o entrosamento dos jogadores ou mesmo a falta de acompanhamento aos atletas quando começam a despontar para a alta competição, disse Victor, acrescentando que os problemas não podem ser imputados apenas aos clubes e que é preciso questionar por que razão esses problemas estão a acontecer nos clubes e o que está a ser feito para acabar com eles.

Para dar mais jogos aos futebolistas, Victor Miguel é de opinião que se devem promover outras provas bem patrocinadas como forma de estimular os clubes e os atletas, que por via deviam ter um quadro competitivo melhorado.

– Temos que concorrer para a promoção de outros torneios que possam dar dinheiro aos clubes e aos atletas. Se essas provas resultarem vão cativar os participantes. Esses dinheiros poderão resolver alguns problemas financeiros dos clubes e abrir espaço para a criação de melhores condições de trabalho. Hoje temos mais campos com iluminação e já se justifica que se façam jogos ao meio da semana, concretamente no período da noite, sugeriu.

Como tem sido hábito quando se aborda a perspectiva de melhoramento do futebol nacional, uma vez mais a calendarização da época desportiva foi chamada à reflexão como forma de garantir uma melhor participação das equipas moçambicanas nas Afrotaças. Miguel considera ser este um falso problema, pois em tempos houve uma tentativa de adequar a época e nada mudou.

– As eliminações precoces das equipas moçambicanas não são resultantes desse aspecto. Quando o nosso futebol estava bom; quando tínhamos boas equipas, os nossos representantes chegavam à fase grupos. Vencemos muitas equipas deste continente, lembrou.

 

REALIZADOS NO DEFESO

 

Torneios de bairro

matam os talentos

 Sempre procurando encontrar subsídios para a melhoria do futebol , Victor levantou o problema dos jogadores federados que no defeso disputam torneios de bairro, o que põem em causa a sua integridade física, prejudicando os clubes, que correm o risco de ficar sem os seus préstimos devido a uma lesão contraída nesse tipo de provas.

– Os jogadores federados não deviam evoluir em torneios de bairro. A FMF e os clubes deviam ter uma mão dura sobre esses atletas que jogam nesses torneios porque podem até pôr em causa a Selecção Nacional. São muitos os jogadores que amputam as suas carreiras por jogarem nos bairros. Há situações de lesões contraídas no bairro e os jogadores simulam no treino da sua equipa federada. Isso deve acabar, afirmou Miguel, revoltado com a federação e com os clubes que nada fazem para alterar o cenário.

 

Mambas com nomes falsos

 Além da falsificação das idades, Victor Miguel disse que a associação se debateu com o problema de identidades falsas dos atletasque chegaram a representar a Selecção Nacional, no entanto, o entrevistado do desafio não quis apresentar nomes.

– Não vou revelar nomes. Prefiro não o fazer, mas posso garantir que alguns jogadores chegaram a representar os Mambas com nomes falsos. Tivemos situações em que alguns acabaram regularizando a situação depois de descobertos. Quero aqui recordar uma situação que foi até referenciada nos jornais. A referente ao caso de um atleta do Alto-Maé que chegou a falecer e, porque não usava o seu nome verdadeiro, a família ficou tranquila, no momento, porque não sabia de quem se tratava. Por isso os clubes devem trabalhar com muita seriedade nesse aspecto, disse o entristecido dirigente cessante.

 

CHEGOU A SER DOS MILITARES

 

Matchedje minimizou

descida do Desportivo

 O presidente cessante da AFCM disse ter ficado preocupado quando na última jornada da Poule de Apuramento, Zona Sul, o Matchedje deslocou-se a Gaza com a obrigatoriedade de ganhar para ascender ao Moçambola, pois empatando ou perdendo os locomotivas ficariam qualificados e, consequentemente, a cidade de Maputo ficaria reduzida a apenas quatro equipas (menos uma que a Beira) na prova máxima do futebol nacional.

– O nosso mandato também preconizava o aumento de equipas da cidade de Maputo no Moçambola, o que para nós daria mais competitividade à prova, embora pudesse constituir um desagrado em termos políticos. Achamos que se lutássemos por isso as outras províncias também iriam tentá-lo. Por outro lado, tínhamos que mostrar que estávamos a trabalhar. No entanto, os últimos foram difíceis e desta vez o Desportivo acabou descendo, embora essa situação tenha sido minimizada com a subida do Matchedje. Nos últimos jogos da “poule” passei muito mal. Nunca tinha sido tão adepto do Matchedje como fui dessa vez. Lembro-me que no tempo de compensação do Ferroviário de Gaza-Matchedje fiquei bloqueado, mas depois tive uma explosão de alegria no final da partida. Espero que o Matchedje tenha subido para ficar e espero que o Desportivo se organize e volte rapidamente ao Moçambola, manifestou.

 

Sou viciado em futebol

 Durante muitos anos a vida de Victor Miguel está ligada ao futebol. Primeiro como atleta, depois em funções na arbitragem e ultimamente dirigente daquela que continua a ser a maior associação do país. A pergunta que não quis calar prendeu-se com o seu futuro depois de deixar a associação, respondendo da seguinte maneira:

– Particularmente faço as coisas quando sou solicitado, exceptuando quando apareci a jogar, que foi por iniciativa própria. Quando surgi na arbitragem era para responder a uma situação de crise. Em 1992 houve uma crise de árbitros. Da mesma forma que fui chamado para resolver um problema de liderança na associação de futebol. Se surgir mais uma situação e se estiver disponível vou prestar o meu apoio porque sou viciado em futebol, rematou.

 

Texto de Joca Estêvão

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Subscreve se no Jornal Digital

Moçambola 2019

Pos Equipe J V E D GC GM Pts DP
1. C. do Sol 30 20 6 4 25 56 64 +31
2. UD Songo 30 19 3 8 29 47 59 +18
3. Fer. Maputo 30 13 9 8 22 34 43 +12
4. Fer. Beira 30 12 9 9 25 34 43 +9
5. Fer. Nacala 30 12 5 13 31 28 40 -3
6. ENH 30 10 11 9 30 29 37 -1
7. LD Maputo 30 11 7 12 36 30 37 -6
8. Textafrica 30 11 7 12 30 22 37 -8
9. Des. Maputo 30 10 10 10 29 35 36 +6
10. Incomáti 30 10 10 10 31 29 36 -2
LD Maputo 5 : 4 Des. Maputo
Têx. Púnguè 1 : 1 Nacala
B. de Pemba 1 : 2 ENH
Chibuto 1 : 0 UD Songo
Fer. Nacala 1 : 0 Fer. Beira
Fer. Nampula 2 : 1 C. do Sol
Maxaquene 1 : 0 Fer. Maputo
Textafrica 1 : 1 Incomáti

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