Quando a Espanha não é Espanha!

Isso fez com que muitos, sobretudo a Imprensa espanhola, se perguntassem: será este o fim de uma era? Terá Del Bosque condições e motivação para se manter no cargo depois de tão violento desaire? Haverá matéria-prima suficiente para devolver a “nuestros hermanos” um futuro auspicioso? A resposta a estas questões carece ainda de exactidão mas, na ressaca de uma das maiores desilusões da Espanha, é tempo de começar a fazer contas ao futuro.

O site do “El País” sintetiza a viagem espanhola do céu ao inferno futebolístico numa curta frase: “Uma geração para a memória eterna e um Mundial para o esquecimento.”

Por seu turno, o editor da secção desportiva do “El País”, Ramon Besa, escreve simplesmente que a “Espanha passou da diversão ao sofrimento, e os seus rivais ajustam contas porque, quando a bola não circula com agressividade nem velocidade, a equipa é vulnerável. Não há nada mais fácil do que penalizar as carências de Espanha quando a Espanha não é Espanha.” 

Mas porque encontrar culpados tem sido fácil, os críticos escolheram começar pelo médio Xabi Alonso, passando pelo guarda-redes Iker Casillas, que passou de herói a vilão em dois jogos, acabando no treinador, Vicente del Bosque.

A verdade é que no Maracanã terminou um ciclo único, desconhecido no mundo do futebol, que deixará para sempre na vitrina da Federação espanhola dois campeonatos da Europa e um Mundial. Consumado pelo Chile o desastre que começou com o golo de Van Persie. Perante isso o site do jornal “Marca”, a pergunta que muitos colocam é: “E agora? Como será o futuro da Espanha?”.

Dos jogadores, o destaque vai para racções não muito pacíficas de alguns jogadores, sendo de destacar as de Xabi Alonso que chegou mesmo a afirmar que “a quota de êxito e de alegria estava cumprida e esgotada”. 

Mais ponderado é o capitão Casillas, que disse apenas que “é difícil explicar o que aconteceu”. Só há uma coisa a fazer: “Pedir desculpas às pessoas porque somos os primeiros responsáveis.”

Já Sergio Ramos recusou admitir que este fosse o inevitável desfecho de um ciclo dourado. “Não quero dizer que foi o fim de uma era porque esta é a mesma equipa que foi campeã da Europa e do mundo. Fizemos história pelo nosso país e ninguém se pode esquecer disso”.

Ninguém duvida que a Espanha tenha jogadores com qualidade para substituir a actual geração, até porque é campeã europeia sub-21 e lá têm jovens para substituir homens como Iker Casillas, Pepe Reina, Xavi, Xabi Alonso ou David Villa, para os quais vida na selecção estará, por certo, perto do fim.

Mas a dúvida está em relação ao técnico Vicente Del Bosque, o obreiro de dois dos três títulos obtidos entre 2008 e 2012 (o Mundial em 2010 e o Europeu dois anos depois). Será que este deve continuar a ser o seleccionador. Del Bosque escusou-se a comentar isso depois do jogo com o Chile, dizendo que “não era altura para pensar nisso”, mas a verdade é que, por estes dias, essa será uma das questões que os espanhóis mais depressa quererão ver respondidas.

Sendo certo que a Federação espanhola não quer vê-lo virar costas — “Se quiser sair, diremos que não. E se insistir, diremos que vá de férias e que comece de novo em Setembro”, disse, em declarações à “Marca”, Jorge Perez, secretário-geral da RFEF.

E pergunta-se agora será que o técnico de 63 anos terá ainda a vontade e a motivação necessárias para empreender um rejuvenescimento semelhante ao que foi posto em prática por Luis Aragonés na sequência do Euro-2004, quando a “Roja” também não passou da fase de grupos. Dois anos depois, o antigo seleccionador surgiu no Mundial de 2006, com 12 jogadores novos, mas sem sucesso (caiu nos oitavos-de-final). Ainda. É que depois veio o Euro-2008 e, a partir daqui, já todos conhecemos a história. Será Del Bosque capaz de se tornar o mais recente obreiro de uma revolução bem-sucedida?