Willard salva apáticos ‘’locomotivas’’

A ansiedade era tão grande por parte dos amantes do desporto-rei em Sofala e não, pois, é sabido que os zambianos sempre levaram a melhor contra os moçambicanos nas competições entre si, quer a nível de clubes, quer, igualmente, a nível de selecções.

Esta ansiedade era para esperar ver até que ponto o Ferroviário da Beira poderia travar a força dos zambianos e, quiçá, seguir em frente nesta competição continental, a Taça Nelson Mandela.

Foi assim que o publico marcou presença em massa no ’’caldeirão’’ apoiando, obviamente, os anfitriões, com muitos adeptos trajados com as cores dos ’locomotivas’ ’ o que até deu para deixar os jogadores mais motivados.

Só que isso não desmotivou aos visitantes do Zesco United FC da Zâmbia pois, contrariamente ao que se esperava, estes estiveram a jogar a vontade as ponto de criar muitos calafrios aos beirenses, falhando lances com selo de golo.

SEMPRE WILLARD

Saiu o Ferroviário da Beira e, como era de esperar, lançou-se para a frente na tentativa de surpreender o seu adversário. E fê-lo pois, aos dois minutos Maninho cruzou com perigo mas um defensor cortou a bola para canto que, entretanto, não resultou.

Os zambianos só chegaram com verdadeiro perigo a baliza adversária aos cinco minutos quando Muanza, um dos esteios do conjunto, roubou a bola a um defensor moçambicano tendo rematado para uma defesa segura de Willard, alias, a melhor unidade em campo.

Depois disso, o Ferroviário continuou a pressionar jogando a toda a largura do campo mas as soluções na finalização devido a duas situações. A primeira é que tanto Mário como Nelito, os dois mais adiantados do ataque beirense, não conseguiam sair perante a defensiva do Zesco, sobretudo os centrais que são jogadores altos e possantes. A segunda tem a ver com o facto da intermediária ‘’locomotiva’’ também não conseguir alimentar de forma jogáveis as bolas para o ataque, fazendo-o sistematicamente com bolas altas o que também não ajudava nem ao Mário e muito menos o Nelito por estes serem de baixa estatura.

Mas, mesmo assim, tanto um como outro sempre que estivessem na posse da bola criavam muitos calafrios aos defensores zambianos a ponto de serem, muitas vezes, travados em falta.

Com um clássico de 4x4x2, que se transformava sempre em 3x2x5 em jogadas ofensivas, os treinados de Lucas Bararijo não conseguiam ser mais certeiros nos passes, entregando muitas vezes as bolas ao adversário, este que quando atacasse fazia-o com bastante perigo sempre com Muanza e Gift como os principais manobradores do esquema ofensivo.

Apesar de jogar em casa, o Ferroviário não era o mandante em campo. Contrariamente a isso, o Zesco começou a optar mais pelo jogo de contra-ataques rápidos que muitas vezes apanhava a defensiva adversária em contra-pé, como o que aconteceu aos 10 minutos quando Gift fugiu da marcação e rematou forte para uma defesa apertada de Willard.

Os zambianos foram aos poucos acreditando que poderiam contrariar a avalanche ofensiva dos locais povoando o seu meio-campo com Kalengo e Zulu a serem os pensadores das estratégias.

Foi assim que novamente Muanza, aos 13 minutos teve o golo nos pés mas o seu remate foi devolvido pela trave quando o guarda-redes zimbabweano ao serviço do Ferroviário saiu e fez-lhe uma mancha.

Como que a despertar ainda do susto, a equipa zambiana começou a chegar mais vezes ao reduto dos moçambicanos e Kalengo por pouco não abriu o activo porque o seu cabeceamento encontrou uma (de novo) oposição de Willard.

Até ao minuto 20 a partida havia abrandado de ritmo com as duas equipas a optaram mais na exploração de contra-ataques rápidos com os visitantes a serem mais lestos que os donos de casa com Kalengo, Muanza e o “capitão” Mtonga mais rápidos nas transições de bola assim como nos remates.

Dez minutos depois o jogo voltou novamente a monotonia pois tanto o Ferroviário como o Zesco continuaram a ter os contra-ataques como forma de jogar aproveitando os flancos onde haviam jogadores rápidos como Mário e Nelito bem como Reinildo, do lado dos beirenses e Muanza, Silwimba, Mtonga e Kalengo por parte dos visitantes.

Aos 40 minutos aconteceu o primeiro grande momento do jogo. Jogada rápida de contra-ataque dos visitantes tendo Muanza efectuado um cruzamento milimétrico para o coração da pequena área onde surgiu em antecipação dos defesas o atacante Kalengo a cabecear mas, uma vez mais e com classe, o guarda-redes Willard negou o golo com excelente defesa.

Como que a responder a ‘’provocação’’, o Ferroviário também criou uma soberba oportunidade de golo naquilo que foi o segundo grande momento da partida. Paito captou uma bola na intermediária e com mestria lançou Nelito que ficou isolado tendo desfeiteado o guarda-redes Nyangu mas o seu remate que já ia a baliza desguarnecida acabou sendo milagrosamente interceptado com o pé do defesa Mapili para canto que, entretanto, não resultou. Foi uma das maiores perdidas dos treinados de Lucas Bararijo pois o publico já estava de pé para festejar o golo.

NEM COM A

CATÁLISE DE GILDO

O Ferroviário da Beira entrou na segunda parte com a mesma disposição táctica tal como o na primeira parte, enquanto o Zesco substituiu Silwingo por Nkowani na tentativa de refrescar o meio-campo.

Com as duas equipas nesta disposição, esperava-se que tanto uma como outra entrasse para este período com nova dinâmica na esperança de alcançar algum resultado. Mas, mesmo assim, os ‘‘locomotivas’’ foram os que pioraram dando, inclusive, a iniciativa do jogo ao seu adversário.

Com muitos passes falhados, sobretudo na intermediária, Lucas Bararijo acabou por tirar Paito tendo para o seu lugar entrado o jovem Gildo. Com a entrada deste, de facto, viu-se um Ferroviário algo diferente pois Gildo veio dar maior fulgor a intermediaria com alguns rasgos individuais e passes certeiros para o ataque.

O combinado local continuava a optar por algumas jogadas de profundidade tentando aproveitar a velocidade de Mário e Nelito mas, tal como dissemos, entre os latagões zambianos as coisas não saiam de perfeição, pois sempre os defensores saiam a ganhar, embora algumas vezes recorrendo a faltas.

Entretanto, aos 50 minutos, uma falta de comunicação entre o guardião Willard e a defesa Emídio por pouco dava em golo pois estes chocaram-se e a bola sobrou para Nkowani que cabeceou mas Cufa esteve atento e aliviou o perigo.

Com um ‘’puxão de orelhas’’ por parte do ‘’banco” técnico foi possível o Ferroviário melhorar de forma significativa a sua coordenação na intermediária a ponto de criar muitos lances de perigo mas a não ser clarividente na finalização.

Com Gildo sempre a ser o dinamizador do jogo a par de Reinildo e Maninho, os locais melhoraram a sua forma de actuação mas, tal como foi na etapa inicial, Nelito e Mário estavam sempre em desvantagem no confronto directo com os defensores contrários o que lhes tirava a possibilidade de manobras, embora de quando em vez o fizessem usando a sua arte de drible e rapidez levando a que os zambianos jogassem a margem das leis.

Aos 71 minutos novamente Muanza colocou em perigo a baliza de Willard. Contra-ataque rápido do Zesco do lado direito que enquadra Muanza a entrada da grande área tendo chutado forte mas o guardião Willard disse não a bola com uma palmada para canto que não resultou.

O Ferroviário respondeu com uma jogada com bastante perigo mas Nelito acabou caindo na área tentando ganhar um penalte mas o juiz angolano da partida entendeu que o jogador moçambicano o tentou enganar tendo, por isso, admoestado com cartolina amarela perante a reclamação das hostes beirenses.

O ‘’banco’’ local ainda efectuou mais duas substituições tendo entrado Coutinho e já no fim Tinho mas, o primeiro ao invés de dar uma contribuição acabou sendo o maior perdedor de bolas, além de passes mal feitos.

Enquanto isto, os zambianos também fizeram o mesmo número de substituições que tiveram algo de melhor comparativamente ao que o seu antagonista fez, ou seja, Kambole, Chama e Nkowani foram mais-valias para a actuação do seu conjunto.

KO: Lucas Bararijo

Otécnico Lucas Bararijo montou a mesma equipa inicial que jogou na partida da primeira “mão” da primeira eliminatória na Tanzania, apostando em uma intermediária constituída por Paito, Mandava, Reinildo e Maninho. Ora, se na etapa inicial estes jogadores carburavam bem, certo é que na etapa final as coisas complicaram-se, pois Mandava e Paito foram substituídos, embora o primeiro ainda desse conta do recado enquanto Paito, que vem de uma paragem devido a lesão, ainda está furos abaixo da sua plenitude. Lucas apostou em Coutinho para o lugar de Mandava, mas esta aposta foi falhada pois, praticamente entrou desastrado e, como fruto disso, o meio-campo “adormeceu” o que terá facilitado que os zambianos fossem mais aguerridos e criassem mais perigos junto a baliza de Willard.

Ok: George Lwanoamina

O técnico zambiano do Zesco entrou com a lição bem estudada. Montou uma equipa compacta na intermediária, com dois atacantes rápidos que se mudavam constantemente, nomeadamente Kalengo e Muanza. Foi a partir dai que o Zesco esteve sempre a ganhar no meio-campo  e criando, depois, perigos junto a defensiva “locomotiva”. Foi assim o Zesco conseguiu manietar a turma local a ponto de conseguir um empate a zero deixando em aberta a discussão da eliminatória para dentro de uma semana na Zâmbia.

Importante não termos perdido

-Victor Matine, técnico-adjunto do Fer. Beira

“Eles estiveram bem em quase toda a primeira parte, enquanto nós só o fizemos nos minutos finais e na segunda parte melhoramos significativamente. Falhamos muitos passes. A eliminatória está em aberto. Foi importantes não termos perdido aqui apesar de termos estado bastante apáticos. Não vamos facilitar o nosso adversário apesar de que vai jogar na sua casa. Acredito que vamos passar a eliminatória porque aqui não estivemos bem no aspecto táctico e isso vamos superar.”

Estou confiante

que vamos passar

- George Lwandamina, técnico do Zesco

“Lamento que não tenhamos conseguido traduzir em golos as várias oportunidades que criamos mas o futebol e assim mesmo. De qualquer modo, agora que já conhecemos o adversário vamos preparar melhor e estou confiante que faremos melhor e vamos passar a fase seguinte.”

Texto de António Janeiro

Fotos de António Luís