Comboio de sal e açúcar

Comboio de sal e açúcar é uma longa-metragem de 90 minutos do reputado cineasta moçambicano (com origem brasileira) Licínio Azevedo que conta uma dramática história do tempo da guerra.

 O filme narra uma viagem realizada nas linhas férreas moçambicanas após a guerra civil. É a história de amor de uma enfermeira que se apaixona por um militar durante a viagem de um comboio que, em plena guerra civil, procura chegar ao seu destino sob iminente perigo de um confronto militar.

O destino era mesmo o vizinho Malawi, onde face à crise de açúcar no país as mulheres se deslocavam a fim de fazerem troca de sal por açúcar, para depois comercializarem no território moçambicano. Essa era a forma que as mulheres do norte do país encontravam para puderem sobreviver.

Recentemente o filme ganhou o prémio Locarno na Suiça, na categoria de melhor produção. Para além deste filme Licínio de Azevedo conta com “Virgem Margarida”, “Desobediência” e “O Grande Bazar”.

Vem este intróito muito a propósito do embate entre o Ferroviário de Maputo e a União Desportiva de Songo, duas equipas com realidades diferentes na tabela classificativa.

À entrada deste jogo a União Desportiva somava 48 pontos na primeira posição, sendo que o seu oponente somava 38 na quarta posição. Se por um lado a equipa da casa queria ganhar para se aproximar do pelotão da frente, por outro para a UDS uma vitória cairia como um presente em tempo de crise que abala o país, o que significaria alargar a vantagem pontual sobre os seus mais directos perseguidores. Nada!

O jogo acabou mesmo sendo um comboio de sal e açúcar, a avaliar pelo desenrolar dos acontecimentos dentro das quatro linhas. A UDS quase que saía da Machava com um comboio de açúcar, mas acabou saindo com o de sal e o Ferroviário também ficou com o de sal. Logo a troca não foi bem sucedida.

SUSTO DE KAMBALA

Com o estatuto de líder a União Desportiva de Songo logo aos dois minutos cria um susto na baliza de Leonel, quando ainda na alvorada do jogo, isto é aos dois minutos Kambala cabeceia perigosamente, mas o guardião “locomotiva” aplica-se a fundo para evitar o pior.

Como que a ver o seu orgulho ferido a equipa da casa responde através de Mastyle que obriga Swin a uma defesa de recurso, depois de uma tentativa de chapéu por parte “locomotiva”. Estavam jogados 16 minutos. No minuto seguinte Maurício falha o alvo após um centro de Gito.

A equipa da casa ganha protagonismo no jogo, visto que passa a assumir as despesas do mesmo, criando algumas jogadas de perigo, sem, no entanto, lograr ao tão almejado golo. Ainda que chegasse ao sector mais recuado dos “hidroeléctricos” com regularidade, o Ferroviário se mostrava displicente na hora de atinar com a baliza.

E como que a seguir a teoria segundo a qual quem não marca arrisca-se a sofrer a União Desportiva de Songo viria a adiantar-se no marcador por intermédio de Stélio, que conclui com êxito um centro de Lanito. Não houve abalo da parte da equipa da casa, considerando que continuava a explanar o seu jogo de forma algo tranquila.

E mesmo no limite da primeira numa autêntica brincadeira da defensiva forasteira Timbe atira a contar ao cabecear vitoriosamente, respondendo desta feita a uma solicitação de Edmilson. Este seria o último lance digno de registo nos primeiros 45 minutos.

QUEM TEM LUÍS TEM…TUDO

A segunda metade do jogo começa algo morna se tomarmos em linha de conta que as duas equipas entraram resguardadas no seu meio campo, tornando a partida um tanto ou quanto sonolenta. Nem a equipa da casa muito menos os forasteiros conseguiam transpor a linha divisória do meio campo.

Só aos 17 minutos os muitos adeptos presentes no mítico e renovado Estádio da Machava colocaram as mãos à cabeça, quando Kambala desfere um portentoso remata que levava selo de golo, só que o esférico passa ligeiramente por cima do travessão.

Dois minutos depois o mesmo Kambala enche o pé num remate à meia distância, tendo Leonel correspondido com uma defesa segura. Aos 69 minutos Timbe obriga Swin a uma defesa apertada com um verdadeiro míssil à entrada da grande área.

Era um momento de total equilíbrio entre os dois contendores, consubstanciado pelo facto de a qualidade do jogo ter melhorado substancialmente. E veio…o momento do jogo. No minuto 77 o prodígio de Angonia, Luís Miquissone chama a si o seu tecnicismo.

Numa perda de bola no limite da grande área o internacional moçambicano ganha o esférico, tendo varrido todos adversários que lhe foram aparecendo pela frente e por fim escolhido o ângulo certo para colocar a bola. Um golo de belo efeito, que obrigou aos adeptos curvarem-se ao talento do Luís.

Parecia que a história do jogo estava feita, pois os poucos adeptos da equipa visitante já gritavam “campeão” em uníssono. Puro engano! Ainda havia um pequeno detalhe por acontecer. Faltando dois minutos para o término do tempo regulamentar, o Ferroviário empata a partida, numa infelicidade de Stélio ao marcar em sua própria baliza.

Era mesmo o fim. A equipa de arbitragem chefiada por Estêvão Matsinhe portou-se bem, visto que deixou os jogadores serem os protagonistas do espectáculo. Recomenda-se.

CABINAS

Bom jogo de futebol

- Carlos Manuel, treinador do Ferroviário de Maputo

“Foi um bom jogo de futebol, onde estiveram em campo duas grandes equipas e que proporcionaram um bom espectáculo ao público. Nós fomos a equipa que mais procurou a vitória, até porque éramos a equipa que mais necessitava, mas acabamos consentindo dois golos em lances que poderíamos ter feito melhor. Mesmo assim fomos atrás do prejuízo e conseguimos empatar”.

 

 

 

Árbitro habilidoso

- Artur Semedo, treinador da UD Songo

“Faltou-nos eventualmente o saber ganhar. Estivemos por duas ocasiões a frente do marcador merecidamente. Entramos bem na partida e com um forte domínio, mas há algumas coisas que não podemos escamotear, pois sentimos isso na pele. Hoje o árbitro foi extremamente habilidoso. Sei quais são as ligações que este árbitro tem. O jogo só tinha um sentido para ele, cortava os nossos lances. E o mesmo já nos tinha vetado num outro jogo”.

Texto de Ibraimo Assamo

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Fotos de Luís Muianga