Há um gato escondido com o rabo de fora atrapalhando o maquinista

Antes da Independência, o Ferroviário de Maputo conseguiu conquistar mais campeonatos na então Província de Moçambique. A sua grandeza fez-se de títulos, ostentando sempre os melhores jogadores, como Baltazar, Nélson Mafambane, Abel Jambane, Abel Miglietti e Zeca Miglietti (estes dois jogaram no Benfica e no Porto), Brassard, Carlos Bruheim(guarda-redes), Antoninho Matonse, Marito, Teixeira, Baltazar, só para citar alguns nomes.

Depois da proclamação da Independência Nacional, e com a saída da maior parte dos jogadores influentes para Portugal, os numerosos adeptos do Clube Ferroviário de Maputo tiveram de esperar seis anos para voltar a conquistar um campeonato. Foi precisamente em 1982, com jogadores como João Hafussene, Joaquim João, Januário, Mabjaia, Vicente, Pelembe, Jerry, Ramos, Gastão, Nicolau, Gilberto, entre outros craques que o país viu nascer.

Depois desse título, os “locomotivas” voltaram a erguer o canecão seis anos mais tarde, em 1989, chegando a parecer que a fórmula para a conquista do título era encontrada em intervalos de seis anos porque em 1996, novamente, voltou a sagrar-se campeão.

No entanto, o hábito de esperar seis anos para voltar a festejar a conquista de um título quebrou-se. O Ferroviário de Maputo venceu o da época de 1998/99, vindo a perder os dois campeonatos seguintes para o Costa do Sol, num momento em que se vivia uma autêntica bipolarização no futebol moçambicano.

A fórmula do título deixou de obedecer ao intervalo anterior e, quando os apaniguados “locomotivas” menos esperavam, o Ferroviário chegou ao fim do certame em primeiro, como veio a acontecer em 2005, repetindo a proeza em 2008 e 2009, por sinal os últimos troféus do Moçambola que figuram na galeria dos “locomotivas”. Seguidamente, os “locomotivas” falharam os títulos de 2010, 2011 (Liga Muçulmana), 2012 (Maxaquene) e 2013 (Liga Muçulmana).

Ao que tudo indica, no Moçambola-2014, embora matematicamente ainda possa chegar ao título, não se vislumbra por parte dos “locomotivas” um melhor desfecho, tendo em conta os resultados menos bons no arranque da prova.

LOCOMOTIVA

SEM VAPOR

No final da partida contra o Costa do Sol, os adeptos gritavam nomes de alguns elementos do clube e da equipa técnica, a quem suspeitam de estar do lado de dentro atrapalhando o maquinista de levar a “locomotiva” ao destino; aos lugares de cima, levando nos seus vagões a alegria aos seus adeptos, sempre ávidos em festejar, festejar, como sempre foi a sina. Segundo a reacção dos sócios e simpatizantes do Ferroviário, há elementos estranhos internamente a puxar a equipa para não vencer.

Os primeiros onze jogos deste ano só deram três vitórias (Desportivo, 4-2; Têxtil do Púnguè, 0-1 e Ferroviário de Pemba, 2-0), três empates (Ferroviário da Beira, 1-1; Liga Muçulmana, 1-1 e Estrela Vermelha, 0-0) e mais cinco derrotas (Maxaquene, 1-0; Ferroviário de Nampula, 3-0; Chibuto, 1-0; HCB, 2-3 e Costa do Sol, 1-2), somando doze pontos.

Em igual período de disputa no ano passado, a equipa tinha tido o mesmo palmarés, o mesmo número de pontos, sendo que a diferença está nos golos. Este ano, os “locomotivas” fizeram dez golos e sofreram catorze, enquanto em 2013 a equipa tinha produzido menos. Marcara sete golos e sofrera por dez vezes.

O início do Moçambola-2013 foi com o Chingale, em Tete. A equipa venceu por uma bola sem resposta, empatando em seguida em Vilankulo (0-0). Acabaria por perder na terceira ronda com o Estrela Vermelha, na Beira, por 1-0, prosseguindo com um ciclo de derrotas, frente à Liga Muçulmana (2-1), Desportivo de Nacala (1-0). Na sexta ronda venceu o Matchedje (2-1), num jogo sofrível em que esteve a perder, virando o resultado. Na viagem a Songo empatou com o HCB (1-1), mesmo resultado contra o Chibuto, no Vale do Infulene. O Têxtil surgiu no seu caminho e venceu por 1-0, fora de portas, mas diante dos seus homónimos da Beira e de Nampula perdeu por 2-0 e 1-0, respectivamente. Nessa temporada, fez mais quatro pontos até ao final da primeira volta, empatando com o Costa do Sol (1-1) e vencendo ao Maxaquene (1-0).

Ao contrário destes dois anos, em 2012, após a décima primeira jornada, o Ferroviário de Maputo comandava a classificação. Nessa altura, o maquinista era Nacir Armando e esperava-se que o técnico levasse a “locomotiva” até à meta desejada, dando mais momentos de alegria aos seus numerosos adeptos, mas acabou em quarto lugar com menos oito pontos que o Maxaquene, campeão nacional.

No ano passado, recorde-se, a equipa iniciou-se com o português Victor Urbano no comando técnico, coadjuvado por Danito Nhapossa e Victor Magaia, este último treinador de guarda-redes.

Os resultados não foram os desejados e, sem ter em conta que o Urbano era impedido de trabalhar com a equipa desde o início dado que a sua autorização de trabalho pelo Ministério de Trabalho (MITRAB) não tinha sido regularizada, acabou afastado. A direcção indicou, face a situação, que os então adjuntos do português conduzissem o destino da locomotiva. Danito Nhampossa e Victor Magaia foram com a equipa até ao fim da temporada, tendo sido afastados da Taça de Moçambique e terminado o campeonato em quarto lugar.

VÍTOR PONTES APONTA

FALTA DE TRANQUILIDADE

Este ano, depois de um processo longo de indefinição, Vítor Pontes chegou. Danito Nhampossa e Victor Magaia, à semelhança da temporada passada, foram indicados como adjuntos. Aliás, foram estes dois elementos que iniciaram o comando do destino dos locomotivas, independentemente de ser um trabalho coordenado com o técnico português, que treinara o Chibuto na temporada passada.

Não obstante os maus resultados, a equipa do Ferroviário de Maputo tem estado a apresentar um futebol vistoso, criando muitas oportunidades de golo, algumas das quais em situação de empurrar a bola para além da linha de golo, mas não as consegue concretizar. O técnico atribui as culpas do sucedido a falta de tranquilidade dos jogadores.

– Perdemos varias algumas oportunidades por intranquilidade no momento da verdade, mas é preciso dizer que em outras é por infelicidades. Estamos a trabalhar nesse aspecto para que consigamos fazer golos. Só com golos podemos ganhar jogos. Sou sempre optimista e acredito no meu trabalho e nos meus jogadores. Temos jogado bem e as pessoas que têm visto os nossos jogos percebem da qualidade que temos, justificou Pontes.

Nas primeiras onze jornadas, o Ferroviário, apesar de ter-se reforçado com Gabito, um defesa de qualidade, assiduamente convocado aos Mambas, que se juntou a Chico na zona central da defesa, e Barrigana e Edmilson nas laterais, sofreu catorze golos.

– A maior parte dos golos que sofremos são por desatenção da nossa parte. Também cometemos alguns erros, é claro, mas a desatenção é gritante. Temos estado a trabalhar para corrigir os erros, mas como na situação do ataque, é preciso que os jogadores estejam tranquilos em campo. Esse factor é bastante determinante para alcançar melhores resultados, esclareceu o técnico.

NO CLUBE LOCOMOTIVA

Banalização começa

no fim da década de 90

Alguns sócios do Ferroviário de Maputo referem que, a partir de 1997, a situação do clube começou a descambar quando os Caminhos de Ferro de Moçambique decidiram que os seus funcionários de confiança deviam assumir os destinos do clube, sem bases, nem o mínimo de conhecimentos na área desportiva, afastando aqueles sócios que não pertenciam a empresa.

Os sócios perderam, consequentemente, o poder de escolher os membros para as direcções do clube, ou seja, passaram a não ser tidos, nem achados e o descalabro foi total.

Quando a entrada de Osório Lucas para a presidência, o clube estabilizou-se, mas este acabou por sair em 2010, vítima de sabotagem. Desse período a esta parte, o Ferroviário tem sido um clube vulgar, apesar dos valores que investe para a equipa de futebol, concretamente.

As infra-estruturas apresentam, por outro lado, um aspecto deplorável. O Estádio da Machava, a título de exemplo, está a conhecer os piores momentos da sua história. Os balneários, as casas de banho, as bancadas, que apresentam fissuras bastante visíveis, são a imagem de uma verdadeira degradação.

NOS ÚLTIMOS ANOS

Jogadores influentes

saíram a custo zero

Nos quatro anos, o Ferroviário de Maputo viu a sua porta aberta para a saída de jogadores nucleares. Incompreensivelmente, os locomotivas não conseguiram renovar e segurar o meio-campista Momed Haji e Jeremias Sitoi (Jerry), que deixar o clube para reforçar a Liga Muçulmana.

A direcção teve tempo suficiente para negociar com os jogadores, mas negligenciou a possibilidade de manter os dois jogadores importantes, que saíram a custo zero. As perdas não pararam por ai. Em 2012, o avançado Apson Manjate, também conhecido por Sonito, não resistiu a tentação de ir para a Liga Muçulmana, mas é bom que se diga que não houve um esforço suficiente para convencer o jogador a não deixar a equipa verde-e-branca.

Com a Liga Muçulmana atenta em reforçar a sua equipa para uma melhor performance, fez um aceno para Imo e Rachide, outras unidades de relevo na manobra atacante do Ferroviário, a quem também deixaram sair a custo zero.

Nos últimos anos, a equipa, é bom que se diga, não foi reforçada com jogadores de peso. A situação mais gritante foi em 2013 em que a equipa contratou jogadores de qualidade inferior às ambições de uma colectividade que tem intenções de ganhar o título.

DESDE 13 DE MAIO

Victor Magaia não faz

parte da equipa técnica

Por decisão da direccão locomotiva, o técnico Victor Magaia deixou de fazer parte da equipa técnica do Ferroviário de Maputo desde 13 de Maio, precisamente após a realização da oitava jornada em que a equipa venceu o Ferroviário de Pemba, por duas bolas sem resposta, coincidentemente iniciando um ciclo de três derrotas consecutivas (contra o Chibuto, HCB e Costa do Sol).

Questionado sobre a saída do seu treinador do guarda-redes, o técnico Vítor Pontes, disse que Magaia, que acabou substituído por Hélio (ex-Chibuto), nunca teve qualquer tipo problema no grupo de trabalho.

– Não foi nada comigo, pelo que sei também não foi com nenhum dos elementos da equipa. Só a direcção poderá explicar o que se passou, disse Pontes.

Todas as tentativas que odesafio tem tentado, nos últimos tempos, fazer junto à direcção do Ferroviário de Maputo redundam num fracasso, mas ficamos a saber que decidiu apresentar um ofício rescindindo com Victor Magaia por motivos, que o visado também escusou-se de referir.

– Não tenho nada a dizer a esse respeito. Fiquei surpreendido com a decisão, mas nada posso falar sobre a tal situação, referiu Victor Magaia.

Texto de Joca Estêvão

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Fotos de Domingos Elias