Goa: uma pérola disputada por todos!

Por aqui talvez se perceba um pouco da dicotomia de um povo dividido entre uma incómoda herança histórica e a necessidade sempre presente de se identificarem com a Grande Índia, da qual são originários. Hoje, os traços da presença portuguesa são cada vez mais reduzidos aos nomes gentílicos atribuídos às ruas e vivendas de estilo colonial do que propriamente aos falares e à comida portuguesas, difíceis de achar em Goa, mesmo até nas cozinhas dos hotéis que acolhem as 12 delegações que participam neste pretenso encontro lusófono: abundam o tempero e a malagueta indianas!

Aliás, a preparação destes III Jogos da Lusofonia foi de um tremendo desencontro entre as autoridades de Goa, com vários membros do Executivo a declararem-se claramente contra a sua realização em território indiano.

São prova disso, por exemplo, as palavras de Vishnu Wagh, membro do partido no poder aqui em Goa, que também se opôs à realização dos Jogos:

- Isto são Jogos para países onde se fala português. Goa não é um país e na Índia não se fala português, portanto como é que nós vamos acolher o evento?, defendia o também poeta, antes de aceitar compor (em concani, língua local) o tema oficial dos III Jogos da Lusofonia, em finais do ano passado.

Mas o que mais fez temer pela realização destes jogos foi o pronunciamento do ministro dos Desportos de Goa, que publicamente afirmou discordar da realização dos Jogos da Lusofonia naquele que é o mais pequeno estado indiano. Nos últimos dias, o governante já apareceu publicamente com um discurso mais moderado, afirmando acreditar que “as gerações futuras vão beneficiar das infra-estruturas edificadas”.

Ramesh Tawadkar, que é ministro pelo partido Bharatiya Janata, que lidera a coligação no Governo indiano, veio a público mais tarde explicar que acolheu a ideia porque as infra-estruturas dispendiosas construídas propositadamente para os Jogos serão utilizadas pelas próximas gerações.

 -Inicialmente, eu não tinha vontade de acolher os Jogos, que são essencialmente para países de língua portuguesa. Eu não gostava do conceito, reconheceu Tawadkar, quando há dias falava numa entrevista na televisão indiana Zee News.

O ministério de Tawadkar desembolsou cerca de 28 milhões de euros (cerca de 112 milhões de meticais) para edificar as novas infra-estruturas que acolhem estes Jogos da Lusofonia, nos quais participam Portugal, Angola, Brasil, Cabo Verde, Timor-Leste, Guiné Equatorial, Guiné-Bissau, Goa (Índia), Macau (China), Moçambique, São Tomé e Príncipe e Sri Lanka.

O governante goês argumentava, na referida entrevista, que o Governo decidira manter a realização dos Jogos na Índia apenas devido ao compromisso assumido pela administração anterior.

Tawadkar não foi o único governante a opor-se aos Jogos: são conhecidas as palavras do ministro das Obras Públicas, Sudin Dhavalikar, que disse ser “contra a sua natureza apoiar este evento, que relembra os tempos coloniais”.

Mas não foi este clima tenso e de certa forma anti-português que Luís Figo encontrou quando, em 2012, o famoso futebolista português visitou o território. A legenda, como lhe chamou a Imprensa local, não sentiu a animosidade com a qual Cavaco Silva havia sido recebido. E se o discurso do Presidente português se referia ao facto de não se incomodar com cartazes como “Abaixo o imperialismo”, já Luís Figo angariava a simpatia dos goeses, que o tinham como ídolo dos tempos áureos da sua brilhante carreira como futebolista.

‑ Sinto uma grande conexão com Goa– dizia Luís Figo aos milhares de fãs, enquanto assinava autógrafos aos enlouquecidos goeses em Margão, a poucos quilómetros aqui de Panjim, a capital de Goa.

O futebolista para aqui se deslocara para inaugurar um projecto de iniciação do professor Carlos Queirós, o qual movimenta mais de 2500 pequenos futebolistas espalhados por todo o território.

Sumbana recebido pelo governador de Goa

É longe deste enredo que o ministro moçambicano da Juventude e Desportos, Fernando Sumbana Jr., que participa nestes III Jogos da Lusofonia na qualidade de convidado de honra, foi afavelmente recebido pelo governador de Goa, Sir Barat Vir Wanchoo, com o qual manteve uma conversa informal versando vários assuntos.

Os III Jogos da Lusofonia foram, evidentemente, o tema que mais animou os dois governantes, com Sir Barat Vir Wanchoo a lançar o repto para que, através do desporto, “as nossas relações sejam mais fortificadas”.

Por seu turno, o ministro moçambicano garantiu ao governador de Goa que Moçambique está interessado em alicerçar as relações com a Índia e, em particular, com aquele território, mesmo fora do âmbito da Lusofonia, “queremos manter o contacto”.

Sobre a possibilidade de Moçambique acolher os próximos Jogos da Lusofonia, Fernando Sumbana Jr. foi mais cauteloso e afirmou que nada estava decidido ainda e que cabia ao Governo de Moçambique aquiescer ou não.

O ministro garantiu ao governador que, se tal acontecer, e tendo em vista participar na cerimónia simbólica de recepção daqueles que serão os IV Jogos da Lusofonia, “um convite será endereçado formalmente a V. Excelência para que possa conhecer Moçambique”, ao que Sir Barat Vir Wanchoo agradeceu antecipadamente.

Sumbana ainda abordou o governador sobre vários outros temas que eventualmente estariam no círculo de interesse dos moçambicanos, como o facto de a Índia ter uma vasta experiência no apoio a pequenas e médias empresas, e ainda no fomento de auto-emprego.

‑ Em Moçambique nós temos muito desemprego, e acho que podemos aproveitar muito a experiência da Índia nesse domínio– disse Sumbana.

Para este encontro de cortesia com o governador Barat Vir Wanchoo, Fernando Sumbana Jr. fez-se acompanhar, de entre outros, por António Munguambe, Marcelino Macome e diplomatas moçambicanos da Embaixada de Nova Deli.

Os russos, depois de Afonso de Albuquerque

Até há bem pouco tempo, Goa não passava de um inofensivo paraíso “hippie”, onde nada acontecia senão uma sonolenta pasmaceira, mas agora os tempos mudaram. As paradisíacas praias de uma beleza sem igual são palco de batalha das máfiasrussas que, segundo as impotentes autoridades indianas, movimentam milhões de dólares.

A julgar pelos relatos amedrontados das gentes locais, os russos ter-se-iam assenhoreado de vastas herdades nos sopés das montanhas, onde pretensamente estariam a ser produzidas drogas sintéticas. A julgar pelos relatos da Polícia, 70 por cento dessa produção estaria a ser vendida fora do território goês, restando, para desconsolo das preocupadas autoridades do Estado, “outros 30 por cento”, que pretensamente estaria a alimentar o vício nas frequentadas e paradisíacas praias goesas, por uma emergente e cada vez maior comunidade de consumidores.

Aliás, estes dias têm sido marcados pela morte de Samanda, esposa do ministro Shashi Thahor, aparentemente por uma overdose, de acordo com a Polícia de Nova Deli, que começou a desvendar aquela que inicialmente era tida como uma “morte estranha”.

Apesar de todos estes medos e receios, a afluência de turistas registou um aumento de 12 por cento, de acordo com estimativas tornadas públicas esta semana pelas autoridades de Goa.

‑ Ou talvez seja a droga que atrai os turistas– comentava lacónico um guia das várias delegações aqui presentes nos Lusofonia Games, como lhes chamam por aqui sem se preocuparem com o anglicismo.

São os mesmos guias, voluntários assumidos destes Jogos, que nos contam que há relatos de russos a amputarem os dedos de pessoas que, pretensamente, seriam suas inimigas.

‑ Há zonas onde nem nós podemos entrar. Só eles é que por ali andam– revela a jovem guia sem esconder o temor.

Para além dos russos, diz-se por aqui existe uma outra comunidade, a de nigerianos, supondo-se que também se dediquem ao mesmo negócio das máfiasrussas, mais concretamente sendo a sua extensão comercial. Outra a ter em conta é a máfiaisraelita, que inclui também a venda de armas, o que torna mais preocupante o problema da sua presença aqui em Goa.

E, pelo que dizem, ainda vêm aí os chineses.

Um filme para contar tudo

 

Pode dizer-se que Prabhakar Shukla é um cineasta muito corajoso:

- Quero fazer um filme que mostre o que se passa em Goa, como o tráfico de droga se apoderou das praias e como torna dependentes os turistas e destrói as suas vidas, afirmou, ao anunciar para Julho o início das filmagens de Rave Party. No título do filme está a chave para entender o que se passa nas praias de Goa em que sobressai Anjuna, o local onde Scarlett Keeling, uma jovem inglesa, foi morta há quase um ano.

Bastante conhecido em Bollyhood, Prabhakar Shukla quer mostrar que Goa é hoje o ponto de trânsito e de consumo de drogas, que o turismo propicia a atmosfera de consumo, criando um mercado lucrativo, em que se enfrentam máfias russas, nigerianas e israelitas, com as chinesas a espreitarem a vez.

E a verdade é que Goa é a plataforma de entrada e saída de estupefacientes na Índia. A notícia sobre a produção de drogas sintéticas surgiu em 2008 e a utilização em larga escala de menores como correios.

Atendendo a que os traficantes recorrem por vezes a turistas como correios, a morte de Scarlett, em Anjuna, poderia estar relacionada com isso. Muitos turistas ocidentais que visitam Goa fazem-no no âmbito de deslocações mais vastas pela Ásia.

Anjuna tornou-se a "capital" de Goa para o negócio de estupefacientes nos anos 80. Depois da atmosfera dos anos 60 e 70, onde era visitada por “hippies” e por turistas para experiências espirituais, chegam os grupos de crime organizado, os primeiros formados por naturais do Quénia e Nigéria, conforme nos conta um motorista de táxi que por acaso ainda fala português.

Mas é nos anos 90 que a reputação de Anjuna como "paraíso" de droga se consolida com a chegada de grupos israelitas. Estes são maioritariamente formados por antigos soldados e não estão dispostos a partilhar o território. Trava-se uma guerra surda entre os africanos e a máfia israelita, que acaba por se impor no final dos anos 90. Aparentemente, com apoio dos meios empresariais e da população: os africanos tinham-se tornado odiosos aos locais.

Mas a entrada dos russos vai reconfigurar o ambiente de Anjuna e outros locais ao longo da costa goense e, segundo o nosso contador de estórias, inicia-se uma segunda guerra surda - por vezes com claros ajustes de contas - entre israelitas e russos que passa pela aquisição em larga escala de terrenos para o cultivo de canabis e por uma estratégia de monopolização das “raves”. No fim, a máfia russa triunfa em toda a linha, mas é estabelecida uma forma de coexistência empresarial entre os dois cartéis.

Por isso mesmo, a rodagem do filme de Prabhakar Shukla deve ser considerada um acto de coragem, sobretudo depois de o cineasta indiano ter recebido ameaças de morte, pretensamente emitidas pelas máfias russas, pouco interessadas em tornar públicos os seus negócios, ilustrando o facto a vez em que o motorista que conduzia um punhado de jornalistas moçambicanos pela não menos famosa praia de Baga, ter sido barrado por dois gigantes russos com um convincente “Nhet”.

Assim, a esta pérola do Oceano Índico, depois dos portugueses, são os russos que aos poucos dominam o território. E ainda vêm aí os chineses…

Almiro Santos, nosso enviado