Deixem o Alberto em paz!

Tinha sido de Alberto Mamba que Moçambique conquistara a primeira medalha de ouro nestes III Jogos da Lusofonia, ao cortar a meta em primeiro lugar na prova dos 1500 metros, com o tempo de 4:06:90 m, deste modo derrubando a “malapata” que afastava os moçambicanos do pódio mais alto.

Até então, o voleibol de sala havia conquistado a medalha de prata em masculinos e o bronze em femininos, neste segundo caso com o demérito de apenas terem participado três selecções nacionais no torneio e, por isso mesmo, significando o bronze o último lugar da competição. Para além disso, o judo conseguira duas outras medalhas: a prata por Bruno Luzia, na categoria de menos 66 quilos, e o bronze por Edson Madeira, na categoria de menos 73 quilos. Todos os metais possíveis, menos o tão querido “gold”.

Por isso mesmo, o ouro escavado por Mamba nos 1500 metros catapultou imediatamente o país para o terceiro lugar no quadro de medalhas, posição que apenas duraria até ao dia seguinte. Seja como for, o facto motivou as hostes moçambicanas aqui em Goa, que têm a difícil tarefa de superar os lugares alcançados tanto em Macau quanto em Lisboa.

Para a prova dos 800 metros, as atenções concentraram-se naquela figura franzina, de penteado feminino, um “rabo-de-cavalo” a segurar as suas “dreads”. Os fotógrafos e os operadores de câmara abeiraram-se do corredor moçambicano enquanto este procedia ao aquecimento junto à grelha de partida, de onde ensaiava algumas corridas curtas.

Os olhos do mundo estavam postos no jovem de 20 anos que, a muito custo, procurava disfarçar o nervosismo. Ditara o sorteio que Alberto Mamba corresse na pista quatro. Quando a partida foi dada, o jovem moçambicano empertigou-se e impôs a sua passada, mas depois de descrever a curva deixou que os outros corredores se lhe juntassem.

A primeira volta foi quase em uníssono, mas o corredor indiano já se mostrava com apetência para arrancar. Alberto Mamba refreou a vontade de acelerar e fazer a vontade do indiano apenas até a meio da segunda volta, quando reparou na “gana” daquele que passara a ser o seu principal adversário, o indiano Lalit Mathur, empolgado pelos gritos do público.

Quando Lalit Vinod Mathur, incentivado pelo seu público, meteu a quinta velocidade, Alberto Mamba não teve outra escolha senão, também ele, engatar a quinta e acelerar – ainda que fosse bastante cedo para o seu gosto – e voltar a tomar conta da prova, apesar do estoicismo do indiano.

Os últimos 200 metros foram de uma tremenda perseguição, com o indiano galvanizado a tentar alcançar um Alberto Mamba que apenas parou depois de cortar a meta em primeiro lugar, para desespero do indiano que se lhe colara aos calcanhares, e desencanto dos espectadores que, mesmo assim, aplaudiram o atleta moçambicano.

Desde modo, Alberto Mamba conquistava a sua segunda medalha de ouro e Moçambique somava a terceira do mesmo metal, pois que momentos antes havia corrido Kurt Couto. Mas, mais do que isso, o jovem Alberto atraía para si as atenções do controlo anti-doping, por isso mesmo não tendo conseguido deslocar-se à sala destinada às conferências de Imprensa.

Kurt Couto apadrinhando Creve Machava

Antes da prova dos 800 metros, ganha por Alberto Mamba, foi Kurt Couto quem abriu as “hostilidades”, quando alinhado na pista 2, ao lado de Creve Machava, correu os 400 metros barreiras em 51:97, uma marca que não chegou a impressionar o mais representativo atleta moçambicano da actualidade.

Revelando-se um “macaco velho”, Kurt Couto deixou que os seus adversários arrancassem desenfreadamente e só depois partiu em sua perseguição, deste modo retirando qualquer possibilidade de os juízes encontrarem argumento para penalizarem o mais cotado dos cinco corredores que se faziam à pista nos 400 metros barreiras.

Mas passada essa fase, muito claramente o vice-campeão africano tomou conta da prova e, surpresa das surpresas, o jovem Creve Machava (completa 18 anos em Fevereiro) foi no encalço, perante o desespero dos indianos Saudagar e Anil, mas sobretudo do cingalês Nandana Jagath Gunathilaka Kuruppu Mudiyanselage, que acabaria por cortar a meta em terceiro lugar, se calhar devido precisamente ao comprimento do nome.

Creve Machava é que não cabia em si de contente, abraçando-se a Kurt Couto que o havia apadrinhado. E foi assim que abandonou a pista, agarrado ao seu ídolo e a uma inesperada prata, como revelaria mais tarde aos jornalistas moçambicanos que o abordaram na sala destinada às conferências de Imprensa.

KURT COUTO

Dêem condições ao Creve!

Na sala de Imprensa, Kurt Couto compareceu com o seu “afilhado”, Creve Machava, nomeadamente ouro e prata da prova dos 400 metros barreiras destes Jogos da Lusofonia, para garantir que “nenhuma prova é fácil, mas eu senti que estava em vantagem porque tenho mais experiência”.

‑ Não era este o tempo que esperava– elucidou ‑mas de qualquer maneira deu para ganhar.

Couto refugiou-se no facto de esta ser a primeira prova do ano, “pois estamos ainda na pré-época”, considerando que, por isso, a corrida não tinha tido grandes primores de ordem técnica.

Comentando o facto de ter tido Creve Machava a correr ao seu lado (Kurt Couto correu na pista 2 e Creve na pista 3) o agora medalha de ouro dos 400 metros barreiras nos III Jogos da Lusofonia disse esperar que o jovem seja apoiado, pois que, segundo as suas palavras, tem condições para ir longe.

‑ Penso que precisa de condições para melhorar o seu tempo e qualificar-se para os Mundiais de juniores que se realizam nos Estados Unidos da América – finalizou.

Creve surpreendido com a prata

 

A verdade é que o facto de Creve Machava ter conseguido o segundo lugar na prova dos 400 metros barreiras surpreendeu muita gente, a começar pelo próprio atleta que, em Fevereiro, completa 18 anos.

‑ Não era este o lugar que esperava conquistar na prova– reconhece ‑ mas estou satisfeito.

Mal contendo-se de alegria, Creve Machava afiançou aos jornalistas moçamicanos presentes aqui em Goa que não tinha dado o seu máximo, e que por isso mesmo esperava poder conseguir baixar ainda mais o seu tempo, que foi de 53:44, de modo a conseguir a almejada qualificação para os Mundiais de Juniores que se realizam nos Estados Unidos da América.

- Acho que hei-de conseguir, até porque hoje não dei tudo o que tinha a dar– disse confiante.

Revelando o que lhe dissera Kurt Couto antes da prova começar, Crevo disse:

‑ Disse que havíamos de conseguir. O seu apoio foi importante para mim – finalizou.

Quadro de medalhas

 

País                      Ouro           Prata          Bronze        Total

 

Índia                   25               18               15               58

Portugal              11               7                 7                 25

Sri Lanka             4                 6                 6                 16

Angola                4                 3                 11               18

Moçambique   3                 3                 4                 10

Guiné-Bissau       2                 1                 0                 3

Cabo Verde        1                 6                 2                 9

Macau                1                 4                10               15

Classificação final dos 800 metros

1

Mozambique

Alberto Mamba

1:53.96

2

India

Lalit Vinod Mathur

1:54.36

3

Cape Verde

Mauricio Cardoso Alves

1:55.74

4

Sri Lanka

Indunil Herath Ekanayaka Gedara

1:57.27

5

Sri Lanka

Chamal Punchi Hewage

1:58.90

6

India

Siddharth Ashok Gad

2:02.30

7

East Timor

Samuel Marcal Das Santos

2:03.15

Classificação final dos 400 metros barreiras

1

Mozambique

Kurt Leonel da Rocha Couto

51.97

2

Mozambique

Creve Machava

53.44

3

Sri Lanka

Nandana Kuruppu

54.42

4

India

Saudagar Misbahuddin

55.40

5

India

Anil Annaso Ainapure

55.82

Classificação final dos 1500 metros

1

Mozambique

Alberto Mamba

4:06.90

2

Sri Lanka

Chamal Punchi Hewage

4:08.60

3

India

Afsal Mohammed

4:10.60

4

Cape Verde

Samuel Freire

4:13.90

5

Cape Verde

Paulo Sezinano Mot

4:19.50

6

India

Vikas Ramachandra Velip

4:23:00

Classificação final dos 100 metros barreiras femininos

1

India

Anchu Mamachan

14.21

2

Angola

Witney Carina Barata

14.45

3

Mozambique

Silvia Panguana

14.76

4

India

Maria Juliet

15.09

Almiro Santos, nosso enviado a Goa, Índia