“In portuguese” nos entendemos

Este fenómeno, o de se falar inglês numa gala lusófona, foi oportunamente explicado por Alex Vong, o macaense que lidera a ACOLOP – Associação dos Comités Olímpicos de Língua Oficial Portuguesa, que acha que mais do que um espaço linguístico, este provento advém das relações desta Lusofonia com outros territórios, adjacentes ou mesmo de proximidade cultural.

Enfim, deu para celebrar a Lusofonia numa Índia que já não disfarça ter-se esquecido completamente da presença portuguesa, que só terminou em 1961, quando tropas indianas invadiram o território para reaver Goa onde, ao que se diz, já não encontraram muita resistência da tropa fiel a António Oliveira Salazar.

Para além da estrutura arquitectónica de uma parte da cidade velha de Goa, o que resta desta presença de Portugal neste território indiano são alguns nomes, como o do velho Mário, chefe de mesa do restaurante do Hotel Mandovi, onde nos encontramos, mas que apesar de tudo já pouco fala do idioma de Luís Vaz de Camões.

O país da marrabenta ou do pandza

Valeu a pena ter adiado os jogos para que o Nehru Stadium fosse concluído, pois que o empreendimento havia sido desenhado para estes Jogos da Lusofonia, e os organizadores tiveram que solicitar mais alguns meses para que o empreiteiro terminasse com a imponente obra arquitectónica, situada a uns 25 quilómetros do centro da capital, Pangim.

Ali se vão realizar apenas as cerimónias de abertura e encerramento destes jogos. O relvado foi devidamente coberto por uma gigantesca manta, por onde sábado evoluiu um espectáculo que fez alarde aos mais modernos atributos da tecnologia de laser, transformando o recinto num verdadeiro vale de luz, cor, sombras e som.

A abrir o desfile das equipas participantes esteve Portugal, com uma delegação que sem ser diminuta, de igual modo não era vistosa, a ponto de abafar os traços de um anglicismo sempre presente, mesmo quando a voz que anunciava a entrada dos lusitanos, aludia ao fado e – adivinhem só – a Cristiano Ronaldo para avivar a memória dos cerca de 40 mil espectadores.

Seguiram-se, aleatoriamente, Angola, Cabo Verde, Timor Leste, Guiné-Bissau, Macau, Moçambique, São Tomé, Sri Lanka e – a maior de todas as delegações – Goa-Índia. Ao todo são 739 atletas de 12 países que irão disputar 693 medalhas. A Guiné Equatorial, na qualidade de membro associado da ACOLOP e pretendente a integrar a CPLP, não desfilou e, estranhamente, igualmente não se fez presente por sob o manto de luz a delegação do Brasil que, ao que se diz, é constituído por uns parcos seis elementos, a mais diminuta de todas as delegações na curta história destes jogos.

Saliente-se, à entrada da delegação moçambicana, a voz do apresentador a aludir, em inglês, que Moçambique era o país do samba e do fado (!?) e nem uma alusão à marrabenta ou, numa versão mais moderna, ao pandza, ritmos pelos quais se calhar melhor nos sentiríamos identificados, como resmungava aborrecido um colega da televisão, sentado mesmo ao lado.

Luz, cor sombra e… a voz de Lorna!

Como se previa, depois de revistos os Jogos de Macau de 2006, por sinal os primeiros, os de Goa também foram marcados pelo folclore asiático que caracteriza os momentos de festa dos povos deste imenso continente.

A tradição indiana foi levada para o Nehru Stadium ao mais ínfimo pormenor, com coqueiros artificiais por entre uma fauna onde constava, evidentemente, a sagrada vaca para o povo hindu. Mas todo este cenário medieval era acompanhado de um autêntico manto de luz produzida por lazer e os sons reproduzidos por uma potente infra-estrutura.

A luz, as sombras e o som transmitiam um realismo que levava os espectadores ao êxtase, a juntar a uma coreografia que, indisfarçavelmente, se notava ter sido basto ensaiada, com temas de um fado ou um vira estetizado, o que nos recordava o acto de se estar na Cerimónia de Abertura dos Jogos da Lusofonia, que os titulares da organização chamados inocentemente de Lusofonia Games.

Depois seguiu-se o momento mais aplaudido, quando a cantora local, Lorna, entoou um tema em concani, o idioma local, bastante conhecido pelos presentes, que fizeram questão de acompanhar a vibrante e poderosa voz da cantora goesa. Lorna alternou a sua actuação com Sonia Sirsat, uma outra cantora da terra – igualmente apreciada pelo público local.

Depois foi o momento em que um grupo de crianças invadiu o recinto ao som de um tema infantil e todos tiveram o ensejo de acompanhar. Balões, borboletas e formigas estilizadas, esse mundo de cor e alegria procurou homenagear as crianças que são brutalizadas por relatos de uma condenável violência sexual que vezes sem conta termina em morte, quantas vezes relatadas pelos órgãos de comunicação social.

Uma última referência para o facto de a tocha olímpica ter sido transportada para o interior do Nehru Stadium por Fortunato Franco, a única legenda viva goesa que representou a Índia nos Jogos Olímpicos de Roma, em 1960. Foi ele quem transportou a tocha que até dia 29 de Janeiro vai arder no Nehru Stadium, enquanto 739 atletas, entre os quais 71 moçambicanos, lutam para conquistar uma das 639 medalhas em disputa.

Como diziam os ingleses: bit it Mozambique!

Sumbana impressionado

com Cerimónia de Abertura

O Ministro da Juventude e Desportos, Fernando Sumaban Jr., mostrou-se impressionado com o aparato que rodeou sábado a Cerimónia da Abertura no Nehru Stadium, a qual assistiu acomodado na Tribuna de Honra, ao lado de altos dignitários do governo local de Goa e da Índia, para além de altos responsáveis dos comités olímpicos dos países que compõem a Associação dos Comités Olímpicos de Língua Portuguesa.

‑ Foi uma bela cerimónia – reconheceu Sumbana aos jornalistas moçambicanos que o indagaram à margem da grandiosa cerimónia – uma apresentação de aspectos culturais de Goa e não só, com uso em alta tecnologia, simulação de situações várias, apresentando várias gerações.

O Ministro comentou ainda o facto de Moçambique ter sido já indicado para organizar os IV Jogos da Lusofonia, em 2017, revelando que devem ser apresentados os termos de referência para que essa pretensão seja presente ao Governo de Moçambique, “para depois de deliberado a esse nível possamos formar uma equipa multidisciplinar, tal como fizemos com os Jogos de 2011”.

Ao abordar as suas expectativas em termos desportivos, Sumbana disse esperar que os atletas compitam “com muita garra”, pois que “sempre que participamos nestes eventos é para trazer medalhas”.

‑ Acredito no empenho dos nossos atletas para atingirem o pódio – referiu o governante moçambicano.

Sobre o facto de se usar basicamente a língua inglesa nuns jogos onde devia reinar o idioma de Luís Vaz de Camões, Fernando Sumbana Jr. desdramatizou o facto, afirmando que tal se ficava a dever a ligações e referências da lusofonia com culturas e realidades adjacentes e que tudo até estava resolvido com a utilização de um intérprete.  

Convidado a comentar os resultados que os Mambas têm estado a angariar na sua participação no CAN interno que se realiza na África do Sul, Sumbana não escondeu o seu desapontamento, deixando, no entanto, um incentivo para que se continue a trabalhar “para que os resultados apareçam”.

Sobre se achava se os Jogos da Lusofonia seriam um embrião para atingir patamares outros, do género dos Jogos da Commonwealth, Sumbana reconheceu ser preciso avaliar estes (os da Lusofonia), os da CPLP e outros nos quais Moçambique participa, e deles tirar ilações que determinem passos e prioridades a seguir.

“Objectivo é superar os resultados de Macau e Lisboa”

- considera Marcelino Macome, presidente do COM e vice-presidente da ACOLOP

O presidente do Comité Olímpico de Moçambique, Marcelino Macome, considerou sábado que os objectivos da participação de Moçambique nos III Jogos da Losofonia Goa-2013, passam por melhorar as duas anteriores prestações, de Macau e Lisboa, respectivamente, considerando tratar-se uma etapa importante na preparação dos atletas que fazem parte do Plano Estratégico desenhado pela sua instituição.

Sobre a Cerimónia de Abertura, o também vice-presidente da Associação dos Comités Olímpicos de Língua Oficial Portuguesa (ACOLOP), responsável pela organização destes Jogos da Lusofonia, que já vão na terceira edição, afirmou aos jornalistas que o assediaram à margem da grandiosa realização dos goeses, que a mesma “simboliza aquilo que nós queremos, como membros desta associação de comités olímpicos, para a nossa região”, lembrando que o lema da ACOLOP é “Unidos pelo Desporto”.

‑ Desportivamente para nós é uma etapa muito importante, no quadro do nosso Plano Estratégico – esclareceu Macome, esmiuçando que o futebol, por exemplo, tem em vista Tokyo-2020 em Sub-20, o basquetebol o Africano de 2015, enquanto que para as atletas do voleibol de praia, que já contam com um treinador brasileiro, “a ideia é que até ao final do ano deverão ir ao Brasil continuar a sua preparação”.

‑ A ideia é que esta seja uma primeira etapa da sua preparação com vista a outras provas – esclareceu, acrescentando que os atletas que estão no Plano Estratégico têm tido uma avaliação mais cuidada e que nestas provas dos Jogos da Lusofonia “é possível chegar ao pódio”.

‑ Porque acredito no empenho e na qualidade dos atletas aqui presentes, embora em algumas modalidades não tenhamos uma avaliação exacta, estamos convencidos que vãos superar os resultados alcançados em Lisboa – disse a terminar.

Futebol estreia-se hoje frente aos indianos

A equipa nacional de Sub-23 de futebol deve estrear-se hoje nestes Jogos da Lusofonia, defrontando a acessível equipa representativa da Índia, depois de uma chegada nada auspiciosa dos pupilos de Augusto Matine a Goa, remontando o episódio amplamente divulgado pela imprensa local, no qual os jovens jogadores moçambicanos se insurgiam contra o facto de serem alojados três elementos em cada quarto, deste modo angariando os Mambinhas alguma animosidade e antipatia das gentes locais.

Porém, parece ter voltado tudo à normalidade depois desta aparente desinteligência, tendo o sorteio ditado que Moçambique e Índia formavam o Grupo A, e os restantes três países que participam com o futebol, nomeadamente Sri Lanka, Macau e São Tomé e Príncipe, formavam o Grupo B, sendo apurados os dois primeiros de cada grupo.

Por conseguinte, os Mambinhas de Augusto Matine estão automaticamente apurados para a segunda fase, restando saber se em primeiro ou segundo lugar, dado que o grupo é composto por apenas duas equipas. Segue-se depois o cruzamento das equipas apuradas, sendo muito provável que, depois do segundo embate com a Índia, no dia 22, Moçambique se posicione em primeiro e jogue contra o segundo do grupo B, com fortes possibilidades de chegar à final.

Registando-se a ausência de Angola, Brasil e Portugal em futebol, vinha mesmo a calhar a conquista deste torneio por parte de Moçambique, depois de uma participação um tanto ou quanto desastrosa no último torneio da COSAFA, troféu ganho pela África do Sul e dedicado a Nelson Mandela.

Vice-campeãs africanas jogam quinta-feira

A equipa de basquetebol feminina de Moçambique, que no último Africano realizado em Maputo conquistou a segunda posição, entra em cena nestes Jogos da Lusofonia apenas na quinta-feira, jogando precisamente contra as angolanas de má memória, que na final do ano passado arrebataram o título continental numa final que as jogadores moçambicanas não querem reeditar aqui em Goa.

Mesmo assim, as atletas moçambicanas já garantiram que não estão neste evento para se vingarem, mas apenas para cumprirem uma etapa da sua preparação com vista ao Campeonato do Mundo que se realiza na Turquia ainda este ano, para além de que gostariam de encontrar estas mesmas angolanas noutras circunstâncias, numa prova mais a sério.

Nas outras modalidades, mais concretamente no atletismo, onde está quase assegurada mais do que uma medalha para Moçambique, precisamente com a presença de dois atletas olímpicos reconhecidos, como são os casos de Kurt Couto e Elisa, a competição apenas deve iniciar também no dia 23 de Janeiro, quinta-feira,.

No que toca ao judo, Edson Madeira, menos 76 quilos, e Bruno Luzia, menos 66, devem entrar em cena apenas na próxima sexta-feira. Ambos prometem dar o máximo para conquistarem um lugar no pódio, pese embora reconheçam as dificuldades que os esperam.

Voleibol masculino perde frente aos indianos

A selecção masculina de voleibol de Moçambique, composta à base da equipa da Autoridade Tributária de Nampula, averbou ontem uma estrondosa derrota frente à sua congénere da Índia por 3 “sets” a 0, na prova que marcou o arranque dos Jogos da Lusofonia.

Os indianos construíram esta vitória fácil desde muito cedo, vencendo o primeiro “set” por 25-17. Nos seguintes (25-21 e 25-10) os indianos reafirmaram a sua superioridade, com uma equipa que, para além de homogénea, se mostrou muito mais possante fisicamente em relação aos moçambicanos.

Efraim Solano, o treinador costa-riquenho da equipa moçambicana, justificou a derrota com o facto de apenas ontem o seu conjunto ter desembarcado aqui em Goa, mas prometeu que, no próximo encontro, frente a Macau, a vitória está garantida. 

Por Almiro Santos, nosso enviado a Goa