Futebol em tempo de guerra

Porém o futebol tem sobrevivido sob fogo cruzado esperando conhecer dias melhores.As potencialidades e riquezas naturais  que África carrega consigo têm sido o motivo  que tem gerado  muitas convulsões sociais e em casos extremos culminando em guerras civis alicerçadas por divisões étnicas e não só.

O Sudão do Sul é um dos vários países que não foge à regra desta triste realidade que o velho continente vem passando dia após dia. Vive-se um momento de incerteza em relação ao futuro de um país que já está fragmentado.  O petróleo é apontado como sendo o epicentro da origem de uma instabilidade política  sem precedentes que já dizimou milhares de vida.

A independência Sul do Sudão foi decidida num referendo realizado entre 9 e 15 de Janeiro de 2011, quando mais de 98 porcento dos eleitores votaram a favor da secessão. O referendo estava previsto no acordo de paz de 2005, que pôs fim a mais de duas décadas de guerra civil entre o Norte e o Sul, com um balanço superior a dois milhões de mortos.

A zona Norte do Sudão é habitada predominantemente pela população de origem árabe, enquanto que no  sul, a população é de origem negra, cristã e animista.  O novo país é rico em petróleo, mas grande parte das infra-estruturas está na região norte. O que de certa forma condiciona o desenvolvimento do país. Aliás o novo governo já havia pedido a ajuda internacional para reconstruir o país.

O Sudão do sul nasce como uma nação pobre, carente de infra-estruturas e energia eléctrica, contrastando com a riqueza natural que o país oferece, o petróleo. Hoje, o novo país herda mais de dois milhões de mortes causadas por mais de 40 anos de guerra civil travada entre os exército sudanês e o Exército de Libertação do Povo Sudanês.

A violência é o conflito político no Sudão está inteiramente ligada a questão da lealdade política e filiação étnica. Por esse motivo, é muito difícil separar a dimensão étnica das rivalidades políticas dizem alguns analistas.

Factores étnicos são facilmente mobilizados em prol de interesses políticos e económicos , razão pela qual, frequentemente se tira proveito deles para se justificar uma guerra que coloca em causa o futuro das gerações vindouras.

o renascer do futebol

O reconhecimento pela Confederação Africana de Futebol (CAF) deu-se em Fevereiro de 2012 e, no dia 25 de Maio do ano seguinte, a jovem nação filiou-se à FIFA. Este facto histórico abriu uma nova página na história do futebol deste país que se encontra mergulhado num banho sangrento que já ceifou milhares de vidas. Razões, petróleo.

Oficialmente o combinado do Sul do Sudão efectuou apenas seis jogos oficiais na sua curta história de existência.

Foi a 10 de Julho de 2012, um dia após o primeiro aniversário de autonomia, que o país alcançou outro marco histórico: a realização do primeiro jogo oficial da Selecção Nacional de Futebol. Entretanto, era demasiado tarde para participar nas qualificações para o Campeonato Africano das Nações de 2013 ou para o Mundial-2014, que já se encontravam a decorrer, daí que esta seja a sua primeira campanha.

Devido ao curto período de existência, o historial de jogos do Sudão do Sul sob a égide da FIFA é curto: apenas seis partidas. A equipa orientada por Zoran Djordjevic, veterano técnico sérvio que já foi seleccionador do Sudão, obteve um empate (2-2) num particular com o Uganda, que coincidiu com o primeiro aniversário da independência. O defesa Richard Justin foi o autor do primeiro golo oficial da selecção sul-sudanesa, obtido na marcação de uma grande penalidade.

Seguiram-se três derrotas (contra Etiópia, Quénia e Uganda), na Taça do Conselho das Federações de Futebol do Leste e Centro Africano (CECAFA) e, finalmente, as vitórias contra a Mauritânia nas pré-eliminatórias desta campanha (2-0 e 1-0), que garantiram a presença nesta fase em que defrontará os “Mambas”.

Na mais recente actualização dos rankings, a selecção surge no lugar 52.º no continente africano e na 201.ª posição a nível mundial.

Importa referir que entre 1999 e 2012, a FIFA investiu 426.517.856,00 milhões de dólares em prol do desenvolvimento do desporto em África, através do Programa de Assistência Financeira e do Programa Goal. O Sudão do Sul foi admitido oficialmente como a 209ª federação afiliada à FIFA por ocasião do 62º Congresso da entidade, realizado em Budapeste em Maio de 2012. A Assembleia Geral das Nações Unidas confirmou a adesão do país em Julho de 2011.

Começar tudo do zero

Organizar o futebol no Sudão do Sul significou começar do zero: a federação está ainda instalada num espaço alugado, contando com ajuda da FIFA para construir uma sede própria. Passo a passo, uma nação cumpre o seu caminho na comunidade internacional e o futebol oferece esperança a 10,6 milhões de sul-sudaneses.

Antes da separação, como Sudão, o país nunca participou num Mundial, mas foi vencedor do CAN (1970, em casa). Desde então, participou por três ocasiões no torneio continental, sem vencer sequer um jogo. A partir de agora, a história é reescrita separadamente, começando com esta campanha para o CAN-2015.

Mesmo jogando em Cartum teremos apoio

– Gabriel Geng, representante da Federação Sudanesa de Futebol

Mesmo perante o clima de instabilidade política existente entre os dois países irmãos ( Sudão do Sul e Sudão), o representante da Federação Sudanesa de Futebol, Gabriel Geng, garantiu ao desafio que, mesmo jogando em Cartum e não em Juba, a selecção contará com o apoio do público.

É um facto que existem algumas diferenças étnicas entre os dois povos. Mas isso, de alguma forma, não será motivo para não termos o apoio em Cartum. Porque não ter o apoio do nosso povo? A segurança estará garantida para o jogo da segunda mão, por isso não há razões para alarme, afirmou Geng.

Questionado sobre se a selecção tem algum jogador a militar no estrangeiro, Gabriel Geng disse que o grosso dos jogadores milita no campeonato local e apenas seis jogam no estrangeiro, mas em campeonatos pouco expressivos.

Quanto ao futuro da selecção, o representante da instituição que tutela o futebol no Sudão do Sul referiu que, apesar de a selecção estar a jogar há dois anos, o país trabalha arduamente para trazer uma nova imagem no panorama futebolístico sudanês.

Somos ainda um país novo e com muitos desafios pela frente. O nosso objectivo passa, primeiro, por criar uma base sólida para uma equipa competitiva e com ambições definidas. Não nos podemos precipitar em querer mais sem que antes tenhamos condições. Estou confiante que daqui a alguns anos seremos uma referência em África, garantiu o nosso interlocutor.

Texto de Raimundo Zandamela

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