O “Nacional”de basquetebol de A-a-Z

A. ÁRBITROS:nas suas actuações no exterior os nossos árbitros têm sido alvos de rasgados elogios por parte da crítica. Isto é um ponto positivo que nos honra e deixa a todos bastante orgulhosos. Julgo que neste torneio e no cômputo geral, a actuação dos árbitros pode ser considerada de aceitável salvo em um ou outro jogo. Todavia, senti que alguns de nossos árbitros acusaram a falta de habituação em dirigir consecutivamente jogos equilibrados e intensos. Por via disso, constatei alguma indecisão nos seus processos decisórios e por vezes a falta de convicção nas decisões que tomavam. Sugeri-me que estes também acusaram de modo geral o desgaste que a prova provocou. Só não entendi porque não houve três árbitros em todos os jogos. Será falta de recursos humanos ou financeiros? Competições equilibrados e competitivas fazem crescer os jogadores, treinadores, dirigentes, jornalistas, público e claro aos próprios árbitros. Sou de opinião que aqueles jogadores que desistem de jogar ou que não conseguem seguir suas pretensões deviam apostar na arbitragem. É uma forma saudável de se manter ligado ao basquetebol ajudando na sua melhoria.

B. BASQUETEBOL: durante os dias em que a prova decorreu e tendo como grande referência o último dia (da negra), o basquetebol demonstrou uma vez mais porque é uma modalidade querida em Moçambique e com grande puder de aglutinar pessoas. Foi bonito ver o público a vibrar, aplaudir, vaiar e etc. Foi mais bonito ainda rever pessoas que a muito andam ou andavam afastadas do basquetebol. Momentos bons para motivar esses filhos queridos desta modalidade a regressarem e reenquadrarem-se como se achar conveniente porque todos fazem falta ao basquetebol. Somos poucos para uma modalidade que é uma grande mais-valia para auto-estima deste belo país. Parabéns ao basquetebol por manter-se a mais entusiasmante modalidade desportiva em Moçambique.

C. CAMPEÕES e CANTERA: que o Clube Ferroviário da Beira foi campeão justo e merecedor creio que nisto estamos quase todos de acordo! Entretanto, quero aqui destacar três verdadeiros campeões e que são produtos da cantera do CFVB: André Velasco, Eduardo Lon e Nilton Manheira (treinador-adjunto). Lembro-me deste três meninos (agora já veteranos) desde os escalões de formação, quando nos batíamos nos campeonatos nacionais (iniciados, juvenis e juniores). São exemplo de persistência e são fruto da formação do CFVB. André Velasco ainda tentou uma aventura pelo Desportivo e Académica, ambas de Maputo, mas foi mesmo no Chiveve e no seu CFVB onde se afirmou. Nenhum dos três tinha até aqui sido campeão Nacional em seniores. Quis o destino que o fossem no clube que os trouxe a ribalta. Valeu a persistência e dedicação rapazes! Parabéns aos três grandes campeões da cantera do CFVB.

D. DELFINO: meu amigo DELFINO foi o antigo treinador do CFVB. Durante os anos em que assumiu a equipa conseguiu ombrear de igual para igual com as equipas de Maputo. Mas o que me chamou particular atenção é o fato de mesmo já não sendo treinador da equipa, Delfino ainda vive o basquetebol com muita dedicação. Pois, ele fez coincidir a sua licença disciplinar (férias) com o torneio nacional de basquetebol, de modo a vir da Beira até Maputo assistir in loco o desenrolar dos acontecimentos. Valeu meu caro! Pena foi mesmo não ter assistido à final já que nos seus planos a prova não chegaria a terça-feira. Valeu Coach! Também fazes parte deste sucesso.

E. ESTREIAS: Este “Nacional” marcou a estreia absoluta de alguns treinadores em clubes grandes como treinadores principais de seniores masculinos. Casos de Simão Mataveia e Rui Rafael foram os que mais me chamaram atenção. Parabéns meus caros! Julgo que vocês vêm contribuir para preencher o quadro de treinadores que já é muito reduzido. Não se envaideçam por tal e preparem-se para que consigam levar a bom porto este desafio. Muita força para tudo que vier. Aprendam a conviver com elogios e críticas, certo! A este nível nem tudo é um mar de rosas. Como diria o outro, há que ter estômago para engolir alguns comprimidos amargos. Não deixem de se preparar técnica, táctica e psicologicamente para continuarem a crescer.

F. FALTAS: o nosso basquetebol tem uma grande particularidade: fazem-se muitas faltas e há muito contacto físico. Apelo aos treinadores para que esforcem-se em melhorar este aspecto na preparação de suas equipas. Não deixa de ser importante o dialogo com os árbitros para que rapidamente se supere esta situação porque quando chegamos lá fora pode-nos ser fatal.

G. GARRA: esta é seguramente a condição sine qua non para se ser um vencedor. E nesse aspecto o CFVB teve-a para dar e vender. Soube usa-la nos momentos cruciais e isto veio superar a falta de ritmo que a equipa tem em virtude de não ter uma boa competição interna. A garra valeu-lhes muito.

H. HISTÓRIA: foi o que fez o CFVB, pela primeira vez no pós-Independência, ao conquistar um título nacional de basquetebol em seniores masculinos foi para uma província, no caso a de Sofala e a sua capital. Bem haja a Beira. Sem ser xenófobo tenho pena apenas que isso tenha acontecido com um técnico estrangeiro! Enfim!

I. IRREGULARIDADE: trago este aspecto porque me pareceu que este foi um dos que rapidamente me chamou atenção na actuação de alguns jogadores. Brilhavam num dia para o dia seguinte sumirem do jogo. Como foi possível isto acontecer? Será problema de concentração? Há que identificar rapidamente o que leva os nossos jogadores a serem irregulares nas suas actuações. Um grande jogador só o é quando é regular nas suas actuações! Há que melhorar os índices de concentração nos nossos jogadores.

J. JOVENS: este campeonato se destacou pela presença nas equipas de muitos jovens jogadores. É relevante este aspecto. Será que temos futuro à vista? Os irmãos Novela, irmãos Matos, o Noormaomed, o Manuel (5), Machava (13) e Sika (8), todos do Maxaquene e, ainda, Baggio (5) e Chimondzo (7) do Costa do Sol...entre outros.
L. LESÕES: esta foi uma das manchas negativas do campeonato. Julgo que não há em memória um campeonato que tenha tido tantas lesões e algumas das quais muito graves. Não consegui entender como é que os treinadores tiveram cumplicidade neste modelo de prova. Como foi possível aceitar fazer 11 jogos em 12 dias? Nem na NBA isso acontece! Nunca se respeitam os actores principais que são os jogadores. Não se mensuram as dinâmicas de cargas e etc... dai que o resultado foi esse. Quero desejar a todos os lesionados uma rápida recuperação. No futuro que se salvaguarde este aspecto, por favor. Ter volume de jogos não quer dizer jogar todos dias muitas vezes. 

M. MILAGRE: Coach Mila, como é carinhosamente tratado nos meandros do basquetebol. Destaco o Milagre por um aspecto muito simples: nos últimos 10 anos ou mais tem tido sempre uma presença modesta nas provas nacionais. Ora, o mais curioso é que as suas equipas apresentam processos interessantes. Por força disso, desafio-o a abraçar um projecto mais ambicioso. Chega de ficar à margem das finais e etc. Se anima Coach!

N. NANDINHO: ninguém tem dúvidas que este jogador é de um talento inquestionável. Em forma é sempre uma seta apontada às defesas adversárias. O ponto é o seguinte: Nandinho nos últimos anos e neste em particular (de acordo com fontes seguras) nunca fez a pré-temporada e faz temporada regular com muita inconstância. Julgo que isto não é bom para ele, nem para o clube e para o basquetebol. Nandinho tem que compreender de uma vez por todas que ele tem que ser o líder do Maxaquene e quiçá, na Selecção Nacional! Mas ser líder não é só marcar muitos pontos, etc. Ser líder requer ser de facto uma referência como homem. Tem que se lembrar que no Maxaquene há jogadores jovens que começam a despontar e podem, tendo-o como referência, pensar que para jogar bem não é preciso treinar e só se vai aos treinos quando se quer. Lembra-te que recebeste o testemunho de um senhor chamado Khaimane de Deus ou se preferir Eng. Khaimane. Olha daqui a nada chega a tua vez de passar o testemunho e terás responsabilidade em deixar uma imagem. Por favor Nandinho, desafio-te a fazeres uma época completa e ajudares os mais novos a chegarem a níveis elevados e, quiçá, ajudar o Maxaquene também a reerguer-se. Eu sou dos que defendo que o Maxaquene organizado no basquetebol sai sempre a ganhar. Ora, Nandinho, você não quer ajudar nisso?

O. ORGANIZAÇÃO: aparentemente esteve tudo bem com o Torneio Nacional. Em verdade não foi assim tão linear. Ora vejamos: volto ao modelo de competição que me referi suavemente no ponto L. Este modelo penalizou fortemente os atletas. Muitos jogos em poucos dias não é científico e nem aconselhável em nenhuma parte do mundo. Há que repensar nos modelos de competição de modo a não prejudicar a modalidade e aos seus actores principais. Outro ponto, prende-se com o número de árbitros por jogo. Podia-se ter organizado uma forma de ter três árbitros em todos os jogos. Não deixou de ser preocupante que no final do campeonato não tenham sido escolhidos os melhores do campeonato. Isto é extremamente estimulante para os actores envolvidos. Por favor gente, por mais que fosse para oferecer um postal, mas é sempre bom que se saiba quem foi o MVP, melhor marcador, melhor passador, melhor ressaltador, melhor arbitro, melhor treinador, etc. Há que acautelar estes detalhes no futuro. É verdade que o basquetebol é um desporto colectivo, mas estes detalhes individuais marcam as carreiras dos artistas.

P. PÚBLICO: Foi fiel a sua modalidade predilecta. Esteve sempre presente em numero razoável e no ultimo dia o pavilhão rebentou pelas costelas. O ponto que se coloca é porque é que o público não vem todos os dias aos jogos de basquetebol? Será por falta de divulgação? Será porque os atletas principais não fazem a temporada regular? Qual foi a motivação que fez com que apenas no ultimo dia o pavilhão tivesse ficado lotado? Terá sido somente o facto de ser uma  finalíssima?

Q. QUINTA COLUNA:tive muito prazer de presenciar todos os jogos a partir da Quinta Coluna (assim se chama o lugar onde outrora só ficavam os que estavam contra tudo e todos). Ora, o que me faz abordar a Quinta Coluna desta vez é o facto de esta ter se remodelado completamente quanto à sua postura de olhar o basquetebol. Desta vez se misturaram treinadores, dirigentes, ex-jogadores, ex-treinadores e amantes do basquetebol. Mas mais do que estar contra tudo e todos apenas, desta vez a Quinta Coluna cresceu em termos de análise, debate, confronto de posições, etc. Muito positivo, sim senhor. No final do jogo tudo acabava na positiva. Julgo que foi uma grande experiência e contribuição para o basquetebol. Qualquer dia edito os debates da nova Quinta Coluna. Bem haja!

R. REFORÇOS:aqui está o ponto que merece uma grande reflexão dos treinadores e dirigentes do basquetebol. Ficou comum nos últimos tempos que quando se realiza a prova nacional de basquetebol, todas ou algumas equipas se reforçam por pelo menos dois atletas oriundos do estrangeiro. O objectivo passa naturalmente por melhorar o nível competitivo e dar qualidade aos espectáculos. Com isso ganha o basquetebol e ganham todos. O meu ponto é que reforçar significa trazer alguém que tenha qualidade superior aos que aqui estão e que marquem diferença. Vezes sem conta e infelizmente não é o que acontece sempre entre nós. A pretexto de serem atletas vindos sei lá de onde, vem para aqui jogadores sem nível nenhum, o que é realmente uma pena. Por outro lado, quando vêm os que realmente têm talento não são devidamente utilizados de acordo com sua mais-valia. Não deixa de ser preocupante este aspecto. No futuro, apelo para que haja mais atenção aos scouting que são feitos e tragam bons reforços. São bem vindos sim, mas têm que agregar valor ao espectáculo e estimular a presença do publico.

S. SHOT:traduzido literalmente me refiro ao lançamento ou tiro. Apesar de terem aparecido alguns lançamentos interessantes e dignos de registo, continuo a pensar que devemos olhar para o nosso modelo de jogo que passa também pela metodologia de treinamento. Os nossos jogadores privilegiam apenas as penetrações. Com o tamanho que temos fica sempre difícil jogar assim fora do país. Por favor senhores treinadores de formação, ensinem os atletas a lançar e que lancem muito nos treinos. Aos atletas chamo atenção para terem em atenção o fenómeno de treinar sozinho. Isto vai ajudar a melhorar os índices de finalização por via do lançamento. Lancem mais e treinem mais o lançamento exterior!

T. TREINADORES:esta é claramente a classe mais desencontrada no nosso basquetebol. Cada um pensa em si. Todos se acham grandes treinadores. Uns são mais pequenos e não falam com outros; alguns não aceitam e nem sabem conviver com a crítica; os mais velhos não ajudam os mais novos e os mais novos não procuram os mais velhos, enfim! Por tudo isto nunca houve uma associação de treinadores funcional porque todo o mundo está preocupado com acessórios e não com o essencial. Está a perder-se muito tempo nestas coisas. Unam-se, investiguem, participem em clinics, dialoguem, formem-se, leiam mais e deixem-se de tretas. Já repararam que nos últimos cinco anos, quatro das equipas que foram campeãs nacionais, em masculinos, foram treinadas por treinadores estrangeiros? Já falei que não sou xenófobo meus amigos, até porque não faria sentido porque moro na diáspora actualmente e, por isso, sou sim favorável a vinda de qualquer treinador. Mas quando chegam os de fora e ganham pouco tempo depois de estarem aqui, isto é sintomático de que há qualquer coisa que não esta bem! Não nos distraiamos pessoal, há que entender isso. O caso mais recente é interessante. Estando fora ouvi e li nas redes sociais, Imprensa, etc, que o treinador espanhol era fraco, mas no segundo ano já é campeão nacional. Será que é assim tão fraco? Ou nós é que somos realmente fracos? Isto é um indicador claro de que temos que trabalhar mais e interagir muito e esquecermos os nossos egos. Identifiquem em fórum apropriado o que se passa certo!

U. UNIÃO: Este foi o outro trunfo do CVFB nesta prova. Como no referimos em G, a ela associaram-se a garra. Ficou provado que união e garra são invencíveis. Era visível no banco do CFVB os suplentes a puxarem defensivamente pela equipa. Um exemplo claríssimo de união.

V. VETERANOS: Como me referi em J, não obstante ter havido uma grande revelação de jovens no torneio, há ainda um grande número de jogadores veteranos que merecem minha homenagem pela persistência. Não desistam nunca e ajudem a enquadrar os mais novos com vossa sabedoria e experiência porque vocês são e sempre serão úteis ao basquetebol. Destaco nomes como Gerson Novela, Custódio Muchate, Octávio Magoliço (Fer. Maputo), Nelinho, Nandinho, Stélio Nuaila, Sérgio Macuácua e Abel Mabatene (Maxaquene), Ivan Macome, Amarildo Matos, Helmano Nhatitima e Siad Cossa (Desportivo), Sobrinho e Guilherme Cabral (Costa do Sol), Eduardo Lon, André Velasco e Sete Muianga (Fer. Beira), etc! Vocês é que estão a assegurar a continuidade e passem devidamente o testemunho. O vosso papel é importante.

X. EMPATE: parece ridículo escrever empate na letra X, não é? É isso mesmo meus caros! É do Totobola 1X2. O X significa empatar e aqui uso este termo para me referir à formação de atletas. Não obstante ter me referido ao surgimento de jovens atletas, também senti que está empatada a formação de atletas altos. São todos do mesmo tamanho. Sei que é mais difícil formar jogadores altos e habilita-los de alguma qualidade, mas que haja paciência e que não se empate a formação de atletas altos.

Z. ZERO: exactamente isso! Foi o que nos foi dado em termos de estatísticas neste torneio. Continuámos a falhar nos pormenores. Estivemos zero naquilo que é importante para se pensar no modelo de jogo e metodologias de treinamento. Pessoal, como foi possível negligenciar as estatísticas? As estatísticas são, na verdade, o indicador que nos mostra o que temos que melhorar. Como melhorar a prova se os organizadores não providenciam instrumentos para tal a quem precisa? Assim é difícil.