Da Beira sopram ventos de mudança

título de campeão nacional de basquetebol, em seniores masculinos, é ganho por uma equipa que não é da cidade de Maputo.

 

Há um novo campeão no basquetebol sénior masculino de Moçambique.

Mais de uma década depois que o Ferroviário da Beira anunciou-se no basquetebol nacional, disputando com galhardia as fases finais dos campeonatos nacionais de juniores e, anos depois, de seniores, terça-feira o clube logrou, finalmente, alcançar uma vitória tão histórica, tão justa e quanto capaz de obrigar a uma nova abordagem aos actores tradicionais num futuro que deverá, em princípio, começar já em 2013.

 

MAIS DO QUE UMA

SIMPLES CONQUISTA

Acima de tudo que se possa dizer, o facto é que este feito dos locomotivas do Chiveve é histórico, porque nunca antes, desde a Independência Nacional, em 1975, uma equipa que não fosse da cidade de Maputo logrou sagrar-se campeã nacional.

Com este conquista, o Ferroviário da Beira quebra com o domínio absoluto das equipas da capital do país, mas o feito só peca por tardia em relação ao esforço que o clube que já vinha fazendo visando este feito.

Para além de tantas vezes ter sido eliminado nas meias-finais, por duas vezes, em 2003 e 2009 – este último, ano em que a título inédito também venceu a Taça de Moçambique - este mesmo Ferroviário da Beira já havia ido tão longe ao chegar às finais dos campeonatos nacionais, algo que, até então, de fora de Maputo, só ele mesmo é que havia conseguido.

Com a vitória da passada terça-feira, o emblema da segunda maior cidade do país não só revelou que estava mais preparada que a concorrência para terminar a prova a sorrir como, também, forca os tradicionais clubes de Maputo a abordar o basquetebol de forma ainda mais séria e diferente, se não quiserem se ver ultrapassados pelo clube do Chiveve.

É que depois de ter mantido durante os nove meses que precederam o campeonato um treinador (espanhol) e dois jogadores estrangeiros (um americano e um congolês-democrata), para depois ganhar com tamanha justiça e autoridade, em 2013, espera-se uma natural reacção dos clubes da capital.

Se assim acontecer, para além do estímulo que este título dará a clubes de outras províncias do país, é de esperar que a partir da próxima época o nível e qualidade competitiva dos jogadores aumentem significativamente.

Se assim acontecer, a Selecção Nacional, que em Agosto vai disputar o Afrobasket da Costa do Marfim, qualificativo para o Mundial da Espanha, em 2014, deverá ser um dos grandes beneficiários, porquanto irá para aquela competição com jogadores com um bom ritmo competitivo e, por via disso, mais próximos a vitórias.

E se a Selecção Nacional ganhar, a modalidade vai-se credibilizar internamente e, por cadeia, susceptível a investimentos do sector privado, principalmente.

 

CAMPEÃO VENCEU

A TODAS EQUIPAS

Não foi sem derrota que o Ferroviário da Beira se tornou pela primeira vez campeão nacional, mas, mesmo assim, foi ganhando a todas as demais sete equipas participantes no campeonato que oslocomotivas do Chiveve chegaram ao pódio do basquetebol nacional.

Na primeira jornada da fase regular, curiosamente diante do Maxaquene, que viria a ser o último adversário, o Ferroviário da Beira perdeu na noite de 7 de Dezembro por 70-62.

No dia seguinte, o Ferroviário derrotou a formação de Soprotecção de Quelimane, por 76-53, antes de na terceira ronda derrotarem a Universidade Pedagógica de Maputo, por 77-58.

Na quarta ronda, mais um triunfo relativamente fácil, agora diante do Matolinhas, por 76-53, mesmo resultado verificado na vitória da segunda jornada frente à Soprotecção.

Depois de na terça-feira do dia 11 todas as equipas terem gozado do único dia de descanso que estava prevista, de regresso à competição veio a quarta vitória consecutiva num jogo bem disputado quanto renhido, diante do homónimo de Maputo, por 61-59.

Na sexta jornada, mais uma vitória categórica, agora diante do Costa do Sol, por 88-79, antes de, já qualificado para as meias-finais, viria a sofrer uma derrota “propositada”diante do Desportivo de Maputo, por 77-61.

Dissemos propositada porque o Ferroviário da Beira pouco fez para ganhar, exactamente para, em caso de derrota, ser arrastado para o quarto lugar e com a obrigação de jogar com este mesmo Desportivo, nas meias-finais, o que veio a acontecer.

Já num jogo a “contar”, nas meias-finais, o Ferroviário da Beira venceu o Desportivo por 94-91, enquanto que na outra meia-final o Maxaquene suplantava o ex-campeão nacional, Ferroviário de Maputo, por 71-70.

Na final à melhor de três, o emblema do Chiveve começou a vencer o Maxaquene por 88-84, mas viria a perder o segundo jogo por 80-71.

No terceiro e último jogo das finais, a história fez-se com um triunfo por categóricos nove pontos de diferença (89-80).

Em 12 dias, os novos campeões nacionais fizeram 11 jogos, ganharam oito e perderam três.

 

Estimula as províncias

- Francisco Mabjaia, presidente da FMB

Para Francisco Mabjaia, presidente da Federação Moçambicana de Basquetebol, a vitória do Ferroviário da Beira no “Nacional”de seniores masculinos pode significar um grande estímulo para as demais províncias do país que, também, passarão a acreditar que com trabalho podem conquistar títulos nacionais.

Sobre a reclamação de que o campeonato foi duro, por em 12 dias se terem disputado 11 jogos, Mabjaia lembra que foram os próprios clubes que acordaram para que assim fosse antes do início da competição, ainda que reconheça ter sido uma prova anormal, pelo que, em 2013, o propósito é de se voltar a ter uma Liga de Basquetebol, disputado num período que vai de três a quatro meses, tal como aconteceu num passado recente.

- Com esta vitória as províncias vão sair galvanizadas. A partir de agora, todas as províncias tomam a consciência de que é possível terem equipas a sagrarem-se campeãs nacionais. É um sinal de que os campeões nacionais não têm que ser só e somente da cidade de Maputo. Nós temos estado a ver nas categorias de formação, particularmente as províncias da região centro do país a terem um bom desempenho, pelo que este feito do Ferroviário da Beira vai mostrar que, em todas as categorias, com muito trabalho é possível termos basquetebol de qualidade. Se assim acontecer, vamos quebrar a hegemonia da cidade de Maputo e quem vai ganhar será o basquetebol moçambicano no seu todo – disse Mabjaia.

 

Continuamos superiores

- Simão Mataveia, treinador do Maxaquene

Mau grado ter pedido na final e o Maxaquene falhado a possibilidade de conquistar o 20º título de campeão nacional, o seu treinador, Simão Mataveia, lembra que o emblema tricolor continua superior no panorama basquetebolístico nacional.

Mesmo sem em nenhum momento pôr em causa a justiça da vitória do Ferroviário da Beira, Mataveia diz que só foi com superioridade que, debaixo de muitos problemas, o Maxaquene conseguiu aguentar uma época difícil, ir à final do campeonato e, inclusive, lançar novos jogadores

- Penso que fizemos um trabalho vistoso que se consubstanciou no aparecimento de novos jogadores no plantel, nomeadamente o Ivan e Sikakoro. Por outro lado, no terceiro jogo da final dos play-off´s, penso que os árbitros condicionaram bastante a minha equipa. Apesar de tudo, penso que o Ferroviário da Beira ganhou bem. Aliás, pelo investimento que eles fizeram justifica-se que tenha se sagrado campeão nacional. Pessoalmente estou orgulhoso pelo que fizeram os meus jogadores porque trabalhamos durante todo o ano debaixo de muitas dificuldades – lamentou Mataveia que, apesar de crítico, não põe em causa a vitória do Ferroviário da Beira.

- O Ferroviário da Beira já anda nestes campeonatos há muito tempo e um dia tinha que ganhar. Não obstante, a sua vitória não belisca a nossa superioridade. Aliás, posso afirmar categoricamente que nós somos campeões porque fizemos um campeonato justo e limpo. Também somos campeões porque ganhamos jogadores novos e projectamos outros que no futuro podem ser úteis à minha equipa – frisou.

 

 

Texto de Narciso Nhacila

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Fotos de Carlos Bernardo