A onerosa orfandade “tricolor”

O período regular das inscrições dos jogadores das equipas que vão participar nas competições sob tutela da Confederação Africana de Futebol (CAF) terminam hoje, no Cairo, sede da estrutura que superintende o futebol africano. O Maxaquene, clube sobre o qual recai a responsabilidade de representar Moçambique nas eliminatórias de acesso à fase de grupos da Liga dos Campeões Africanos, ainda não inscreveu um jogador sequer.

Graves problemas de índole organizacional continuam a entravar vários processos no quotidiano da colectividade. O Eng.º Solomone Cossa, presidente do clube, que remeteu um ofício à Mesa da Assembleia-Geral do Maxaquene solicitando a sua demissão, continua à espera da resposta que deverá ser dada pelo Dr. Abdul Carimo, que por estas alturas se desdobra em reuniões com as direcções das empresas integradoras, nomeadamente Linhas Aéreas de Moçambique (LAM) e Aeroportos de Moçambique (ADM), tal como nos confidenciou Alexandre Chivale, porta-voz do clube.

Enquanto aguarda a resposta, Cossa é ainda presidente do clube mas, por razões de saúde, não tem marcado presença no seu gabinete de trabalho, na sede “tricolor”. Os membros do seu colectivo, que manifestaram solidariedade para com o seu dirigente máximo, vão gerindo a colectividade, dentro de todas as insuficiências e dificuldades óbvias que uma casa sem liderança ao mais alto nível pode enfrentar.

O momento é de formação de uma equipa de futebol que, para além de participar nas competições internas, tem a grata responsabilidade de representar o país nas Afrotaças, em razão do título de campeão nacional conquistado no Moçambola-2012. Entretanto, contrastando com as exigências que esta responsabilidade acarreta, o Maxaquene ainda não moveu uma palha sequer no sentido de garantir uma participação tranquila nas frentes que se lhe reservam para o próximo ano, apesar de se renovarem as garantias da participação da equipa em todas as frentes, em gozo da prerrogativa de se enviar o expediente à CAF durante os próximos dias, mas já com uma multa pelo atraso do processo, o que deverá onerar de alguma forma a orfandade do emblema “tricolor”.

 

O ABANDONO

Tudo indicava que quinta-feira seria o dia do começo dos trabalhos de preparação visando o início da época 2013, com a realização de inspecções médicas. A equipa técnica, constituída por Arnaldo Salvado e Antoninho Muchanga, bem como o massagista e o delegado, fizeram-se às instalações do clube, na baixa da cidade de Maputo. Tal como se previa, a avaliar pelos últimos acontecimentos, os jogadores não estavam lá.

Arnaldo Salvado, convidado pela nossa Reportagem para descrever o cenário, pronunciou-se nos seguintes termos:

­– Isto é mais uma continuidade daquilo que, infelizmente,  tenho vindo a constatar nos últimos tempos: o abandono. A equipa está entregue a nada! Não há organização e não sei porquê, porque também não me dizem. Devíamos estar a fazer as inspecções médicas nesta manhã de quinta-feira, conforme estava programado. Todos os atletas têm essa informação e os dirigentes também, mas não estamos a fazê-las, o que poderá atrasar o início dos treinos. É certo que ainda não é assim tão preocupante, mas para quem gosta de disciplina e de organização isto contraria aquilo que seriam as minhas pretensões de iniciar a época.

Desde que o Maxaquene realizou o seu último jogo, em Vilankulo, Arnaldo Salvado diz nunca ter tido algum contacto com nenhum elemento da direcção do clube, para a troca de impressões sobre nenhum assunto, tanto sobre a forma de encerrar a época passada, como a de iniciar a seguinte, apesar de já ter feito e entregue o seu programa de trabalho ao demissionário colectivo de Solomone Cossa.

– Fiz referência no que diz respeito às necessidades de organização do campo da Baixa, por exemplo, que agora está cheio de capim. Agora não temos outro. Não sei onde vou começar com os treinos, nem quando. Tudo isto foge por completo
à capacidade que o treinador tem de poder planificar algo. Não sei quais são os jogadores com os quais vou contar, que tipo de plantel terei disponível, para que competições e que objectivos. Estou completamente a zero. Eu tenho um contrato de trabalho com o Maxaquene, sou um funcionário deste clube e estou aqui, no meu primeiro dia de trabalho, esperando que exista trabalho. Tenho somente é de lamentar esta falta de organização.

Como as projecções iniciais apontavam que quinta, sexta e sábado da semana passada fossem para as inspecções médicas, Arnaldo Salvado tinha igualmente planificado a primeira sessão de treinos para a próxima quinta-feira, dia 3 de Janeiro de 2013, com um estágio de concentração da equipa fora da cidade de Maputo.

– Temos optado por Namaacha, por ser um local mais tranquilo, com condições minimamente boas, para lá podermos estar. A outra hipótese é Vilankulo, mas Namaacha seria porque lá podemos fazer alguns jogos de controlo com equipas que já estão em competição, como as da Suazilândia, por exemplo, ou até mesmo da África do Sul, porque fica perto. Queríamos tirar a equipa daqui e concentrarmos os jogadores o máximo possível porque, como sabemos, o trabalho do início de época é bastante intenso, é cansativo, quer em termos físicos, quer em termos mentais, e era importante que nos juntássemos o mais cedo possível.

Mais do que começar uma temporada regular, o Maxaquene tem a espinhosa missão de representar o país fora de portas, nas competições sob a égide da CAF, no caso vertente nas eliminatórias de acesso à fase de grupos da Liga dos Campeões Africanos de Futebol. Entrando em cena a partir da pré-eliminatória, o primeiro jogo do Maxaquene está agendado para o fim-de-semana de 15 a 17 de Fevereiro de 2013, tendo como adversário o Centre Chiefs de Mochudi, do Botswana. Neste aspecto, o técnico “tricolor” tece o seguinte comentário:

– A competição está perto. A equipa do Botswana – se é que o Maxaquene vai entrar nesta prova – já leva 14 jogos no seu campeonato e isto é um “handicap” para nós. Isto implica que nós temos de acelerar no início da preparação para podermos ter uma equipa o mais rápido possível, num nível de confiança e de conhecimento colectivo que se pretende. Este trabalho é diferente da preparação de um campeonato, pois as equipas arrancam todas nas mesmas condições, mas sou obrigado ma concluir que o estágio não vai ser feito, pelo menos nas datas previstas, o que coloca em causa todos os objectivos que se pretendem, porventura, alcançar. Numa equipa de trabalho em que se inclui treinadores, jogadores e dirigentes, tem de haver um único objectivo e uma única forma de pensar. Mas, aqui, no Maxaquene, não há comunhão de objectivos, nem de ideias, o que é bastante triste.

 

César Langa

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Fotos de Inácio Pereira