No silêncio cúmplice dos 10 yes men apenas Victor Miguel discutiu futebol

A excepção voltou a ser Victor Miguel, da cidade de Maputo, que reprovou um relatório e se absteve noutro, para além de ter tido intervenções com premissa estruturante para o nosso futebol.

 

No silêncio cúmplice dos 10 yes men apenas Victor Miguel discutiu futebol

Oito semanas depois da humilhante derrota dos “Mambas” diante de Marrocos, por 4-0, que não só chocou o país como teve o condão de afastar a Selecção Nacional de Futebol do CAN-2013, cuja fase final se realiza entre 19 de Janeiro a 10 de Fevereiro, na África do Sul, a FMF reuniu-se em Assembleia-Geral (AG) ordinária na Academia Mário Coluna, na vila da Namaacha, província de Maputo.

A reunião do mais alto órgão deliberativo da FMF não tinha agendado nenhum ponto para debater relacionado com o descalabro de Marraquexe. Também não havia previsto discutir nada que tentasse dar respostas ao facto de o futebol nacional estar a minguar a olhos vistos em termos estruturais.

E mais, como que a mostrar que a própria Direcção da FMF anda algo a passo de camaleão, a AG do passado sábado fora convocada para, entre os cinco pontos constantes da sua agenda, referir-se a factos que aconteceram em…2011.

Agora, que estamos a escassos dias do final de 2012, a nossa querida FMF reuniu os seus associados para deliberar sobre matérias que dizem respeito a 2011!

 

SÓ MAPUTO-CIDADE FEZ OPOSIÇÃO À FMF

Com quase um ano depois do final de 2011, só agora é que o elenco da FMF se reuniu para deliberar sobre factos a ele referentes, numa acção comprovada pela atitude dos próprios presidentes das associações provinciais de que, de facto, aquela reunião tinha mais a missão de dar um cunho formal à AG.

E foi o que aconteceu, com uma cumplicidade impressionante que fez com que, com o voto da maioria, os relatórios fossem aprovados, mesmo com os erros que continham!

Apesar de ter sido patente o grave erro havido na sala onde decorreu a reunião, em que entre os documentos distribuídos aos presidentes das associações provinciais não havia lá, por exemplo, os factos e resultados das diversas selecções nacionais – que entretanto estavam disponíveis no documento apresentado em “slide show” –, apenas Victor Miguel, presidente da Associação de Futebol da Cidade de Maputo (AFCM) é se levantou para se referir ao facto.

Os demais mantiveram-se calados, num silêncio cúmplice que pode não ser bom para a própria direcção da FMF, que não lhe sendo chamada atenção quando, de facto, comete erros, acaba continuando no erro e hipotecando o desenvolvimento do futebol nacional.

Nem com facto de o relatório de actividade fazer menção ao facto de os “Mambas” terem jogado e derrotado a Tanzania por 2-0, a 23 de Abril de 2011, em jogo de inauguração do Estádio Nacional de Zimpeto, todos os delegados se mantiveram-se calados, menos, mais uma vez, Victor Miguel.

Mais grave ainda foi o facto de esse mesmo relatório conter actividades desenvolvidas em 2008, mesmo assim aprovado pelas 10 associações que sempre votam a favor de Feizal Sidat, menos a da capital do país, que no caso optou por abster-se.

No que ao Relatório de Contas diz respeito, um documento aprovado por 10 associações e chumbado apenas pela da cidade de Maputo, o elenco de Victor Miguel referiu-se ao facto de “as demonstrações financeiras, nomeadamente o balanço, a demonstração de resultados e os balancetes, não apresentarem as notas explicativas, o que dificulta a sua interpretação”.

Das várias questões levantadas pela AFCM, que concorreram para que esta associação votasse contra este relatório, constam ainda os factos de “o inventário não incluir os imóveis da nova sede da FMF e da Academia da Namaacha; os resultados líquidos apresentados na demonstração de resultados para o ano comparativo (2010) diferirem dos apresentados no balanço para o mesmo ano; e não apresentar os relatórios de auditoria externa e independente”.

Para lá das discussões e aprovações, com o voto da maioria, dos relatórios de contas e actividades de 2011, esta AG foi pobre em recomendações à FMF para que traçasse políticas que indicassem os caminhos para o desenvolvimento do nosso futebol.

Pouco produtiva, com delegados pouco documentados desde a origem, esta AG foi uma prova mais do que evidente do quanto, em termos de pensadores e programadores do futuro, o futebol moçambicano continua débil.

 

FMF NÃO PODE CONTINUAR A NEGAR RESPONSABILIDADES

Quase sempre interventivo em todos os pontos que eram abordados na AG, o presidente da AFCM, Victor Miguel, foi uma excepção à regra do silêncio que se instalou entre os seus colegas das demais associações provinciais.

No final da reunião e em entrevista ao nosso Jornal, Victor Miguel disse que a FMF não pode continuar a ir a estas reuniões para impor uma agenda supérflua aos delegados, que a ela devem ir para discutir e deliberar sobre questões candentes do desenvolvimento da modalidade no país.

Por isso, o presidente da AFCM fala de um discurso populista da FMF quando esta não aceita responsabilidades nos maus resultados da selecção nacional, por exemplo, imputando-a, regra geral, aos clubes, que fornecem os atletas aos “Mambas”.

- É impressão minha ou será verdade que disse que se passa muito tempo na AG se discutindo questões de que o futebol não precisa?

- É verdade! Veja que se vem a esta AG para se falar dos castigos que foram aplicados nos jogos de juvenis, juniores, futebol feminino e na Poule de Apuramento para o Moçambola. O importante era trazer a informação do que analisou o Conselho de Disciplina da FMF. Por exemplo, se tiver resolvido um problema relacionado com a violência em um campo de futebol na província de Nampula, teria de vir a esta AG dizer qual foi a resolução que tomou, quem foram as pessoas sancionadas, etc. Para aquelas questões disciplinares, presta-se uma informação de forma sintética porque não é algo de história, em que alguém possa querer saber quantos amarelos ou vermelhos teve um determinado jogador. Agora, se quer essa informação para fazer o perfil de um jogador, então que a ponha numa base de dados. O que é verdade é que o Conselho Jurisdicional é para deliberar e analisar recursos em que não há satisfação das associações e do Conselho de Disciplina da FMF. É essa informação que deve vir no relatório, mas que há muitos anos não vem e sobre a qual AFCM vem sempre reclamando. Diz-se apenas que fez o seu trabalho, mas não se especifica qual. Não se diz o que decidiu e nem quem a ela recorreu.

- Admite que esta AG não discutiu questões estruturantes que mostrem os caminhos a serem trilhados pelo futebol moçambicano de modo a atingir o desenvolvimento e os resultados desportivos desejados?

- Isso mostra que o Gabinete de Estudos e Projectos da FMF - se é que de facto existe – e o Gabinete Técnico deviam apresentar propostas nesse sentido. Olhando e analisando aquilo que é o nosso futebol, estas subentidades devem, depois, recomendar à Direcção da FMF o que se deve fazer para esse melhoramento. Lamentavelmente, em todos os anos não temos recebido essas propostas de acções a serem feitas para o desenvolvimento do futebol moçambicano. A opinião pública é que tem lançado ideias sobre o que se deve fazer ou não para o nosso futebol desenvolver mas, quando se faz uma AG e não se agenda um ponto sobre isso, então não se abre espaço para se discutirem as acções a serem levadas a cabo para se dar um pontapé na crise. E o que tem acontecido é que as discussões são feitas de forma espontânea e solta, em que um e outro delegado apontam a sua opinião a respeito. Não há uma discussão com profundidade sobre propostas de desenvolvimento do futebol nacional, tal como agora nos disseram para apresentar uma proposta por escrito sobre o que deve ser o figurino competitivo para os próximos anos. Mas quem devia estudar essas matérias e dizer o que temos de fazer para haver uma viragem no nosso futebol, respondendo porquê não estão a vir os resultados, é o Gabinete Técnico da FMF, porque tem essa competência e tarefa. Infelizmente, isso é o que está a faltar porque nós, ao nível da AG, devíamos vir analisar e deliberar sobre essas propostas.

- Quer dizer que, para si, não é válida a ideia que tem sido advogada por esta Direcção da FMF, segundo a qual ela não tem jogadores, estando estes nos clubes, pelo que é a eles que se deve responsabilizar pelos resultados dos “Mambas”? Também não é justo pensar que a função da FMF é apenas de ir buscar os jogadores dos clubes e fazer uma selecção e jogar, não se responsabilizando por questões estruturantes do nosso futebol?

- Claro que pensar dessa maneira não está correcto, porque quem pensa no futebol nacional, quem identifica os seus problemas e deve apresentar propostas de solução dos mesmos é a FMF. A FMF é, para a República de Moçambique, o que é a FIFA para o mundo, que é ela que pensa e traz os moldes que levarão o futebol a desenvolver-se à escala planetária. Por exemplo, a FIFA quando vê que há problemas financeiros, define as estratégias que o futebol deve seguir para dar a volta e recomenda o cumprimento dessa estratégia. A FMF deve ter a capacidade de nos dizer que no estágio actual, com o que os clubes ganham, se seguirem uma determinada estratégia por si desenhada, quais serão os rendimentos que passarão a ter, por exemplo, em termos financeiros. Os nossos clubes não recebem nada e o mundo actual nos mostra que, se nós não fizermos algo que possa trazer outros recursos, que não sejam aqueles que recebem através dos seus patrocinadores, quotização dos sócios e da bilheteira, nós concorremos para a sua falência, sobretudo os históricos.

 

Campeão e vice de cada província

disputam Poule para o Moçambola

A partir do próximo ano, duas equipas de cada província passam a disputar as respectivas poules regionais de apuramento para o Moçambola do ano seguinte, segundo deliberou a Assembleia-Geral da FMF, sob proposta da própria direcção.

É que, segundo sustenta a FMF, a Poule de Apuramento para o Moçambola-2013, ganha pelo Matchedje de Maputo, Estrela Vermelha da Beira e Desportivo de Nacala, nas regiões sul, centro e norte, respectivamente, revelou uma grande competitividade e um nível assinalável de interesse em todas as províncias, razão para aumentar o número de participantes.

Assim, a partir da Poule para o Moçambola-2014, todas as províncias vão apresentar à corrida duas equipas, nomeadamente o campeão e o vice-campeão.

Por isso, as regiões sul e centro terão oito equipas cada a disputar a Poule, o que, no total, significará que cada equipa fará 14 jogos, sendo sete em sua casa e igual número fora de portas.

Na zona norte, a província de Nampula vai perder a exclusividade de ser a única que tinha duas equipas, visto que Cabo Delgado e Niassa irão para a Poule também com dois representantes. Nesta região do país, cada equipa fará 10 jogos, sendo cinco em casa e igual número fora de portas.

Com o apuramento de duas equipas por cada província para a Poule de Apuramento para o Moçambola, acredita-se que a competição ganhará, também, um grande impulso porquanto as possibilidades de atingir o escalão máximo de futebol deixarão de estar abertas apenas para o campeão provincial.

 

Licenciamento electrónico começa na próxima temporada

A partir da temporada futebolística de 2013, os clubes e atletas que participem em competições oficiais da I e II Divisão, respectivamente Moçambola e campeonatos provinciais, passam a fazer a sua inscrição junto à FMF de forma electrónica.

Assim, o nosso país estará a começar a cumprir escrupulosamente uma das recomendações da Federação Internacional de Futebol (FIFA), que quer ter os dados de todos os clubes e atletas que disputam as principais competições futebolísticas de todos os países a si associados.

Mas, para além deste requisito, para um clube tomar parte, por exemplo, nas competições de nível continental, terá de provar que realiza assembleias-gerais regulares; que tem as suas contas auditadas por entidades independentes; que tem sede, instalações e campo próprio, equipas dos escalões de formação; tem inscrito no Instituto Nacional de Segurança Social os seus jogadores e trabalhadores; que tem um NUIT (Número Único de Identificação Tributária), etc.

Para ajudar os clubes a responderem às novas exigências da FIFA, uma entidade foi criada na FMF para o efeito.

Nos próximos dias, uma equipa de inspecção da Confederação Africana de Futebol (CAF) virá ao nosso país para inspeccionar o Maxaquene e Liga Muçulmana, equipas que em 2013 vão disputar, respectivamente, as eliminatórias da Liga dos Campeões e Taça CAF.

 

Orçamento da FMF é de 53 milhões

A FMF precisa de perto de 53 milhões de meticais para levar a cabo o seu plano de actividades aprovado no último sábado em AG realizada na vila da Namaacha, província de Maputo.

De acordo com o órgão reitor do futebol nacional, a verba necessária para a época de 2013 é de 52.787.000, 00 (cinquenta e dois milhões, setecentos oitenta e sete mil) meticais.

Este valor é cerca de 27 milhões de meticais a menos que os 80 milhões que o elenco da FMF queria receber só este ano prestes a terminar, do Governo, no quadro do contrato-programa que anualmente aquela entidade rubrica com o Ministério da Juventude e Desportos.

Grande parte deste valor deverá ser gasto nas viagens das diversas selecções nacionais de diferentes escalões, em ambos os sexos, para os respectivos compromissos internacionais.

Só os “Mambas”, por exemplo no quadro da qualificação para o Mundial do Brasil-2014, deverão deslocar-se à Guiné Conacry e Zimbabwe, para além de Namíbia e possivelmente, Angola, para a conclusão do apuramento ao CAN-Interno de 2013.

Em 2013, a FMF prevê que a equipa de Gert Engels faça três jogos de controlo em igual número de datas-FIFA, a 13 de Fevereiro, 14 de Agosto e 13 de Novembro.

Para além das dotações do Estado, a FMF espera receber parte da verba das suas próprias receitas, mormente na bilheteira nos jogos dos “Mambas”, de patrocinadores, taxas dos jogos e de aluguer das suas instalações.

 

Texto de Narciso Nhacila

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Fotos de Domingos Elias