Maxaquene: a complexa crise de um recém-campeão

Na passada segunda-feira, 26 de Novembro, precisamente 22 dias da equipa principal de futebol ter derrotado o Têxtil de Púnguè, na 24ª jornada, por 1-0 e consequentemente conquistar virtualmente o título de campeão nacional, presidente José Solomone Cossa pediu demissão do cargo que ocupava.

A juntar-se a esta situação estão questões de índole administrativas relacionadas, em primeiro lugar, com a própria equipa principal de futebol, mormente ainda não clarificadas e que, por isso, abrem espaço para grandes dúvidas sobre a performance que os campeões nacionais terão no próximo ano, quer nas provas internas assim como nas eliminatórias da Liga dos Campeões Africanos.

Mas, para melhor perceber o que está a acontecer no Maxaquene, vamos em partes.

 

RAZÕES DA DEMISSÃO

DE SOLOMONE COSSA

Ao princípio da noite da passada segunda-feira, 26 de Novembro, a nossa Reportagem soube de fonte ligada à direcção do próprio Maxaquene que José Solomone Cossa havia enviado um ofício ao presidente da Mesa da Assembleia-Geral, Abdul Carimo, a anunciar a sua demissão do cargo que vinha ocupando de alguns anos a esta parte.

Por outro lado, a mesma fonte garantia ao desafio que em solidariedade com o seu presidente, os demais membros da direcção do clube também iam colocar os seus lugares à disposição da presidência da mesa da Assembleia-Geral.

Por detrás da decisão tomada por Solomone Cossa estão manifestações de insubordinação ou atitudes à margem da direcção por parte de alguns sócios do clube, comportamentos e manifestações públicas da equipa técnica e jogadores da equipa campeã nacional que não iam ao encontro da posição da própria Direcção.

A juntar-se a estes factores está, também, uma espécie de falta de solidariedade entre algumas figuras do clube e de dirigentes de empresas patrocinadoras que, nos últimos tempos, posicionaram-se algo que do lado dos sócios que estavam na rota de colisão com Solomone Cossa devido ao já anunciado problema de insubordinação ou de atitudes à margem da direcção do clube.  

É que, desde que o Maxaquene sagrou-se campeão nacional, (re)emergiu na praça pública a figura de Intiaz Amuji, antigo Director do Departamento de Futebol que demitiu-se a meio da temporada passada a referir-se, em diversos órgão de Comunicação Social, ao Maxaquene como se ainda fizesse parte da respectiva direcção.

O seu reaparecimento e o crédito que Intiaz Amuji ganhou na Imprensa nacional desagradou Solomone Cossa que, aos olhos do grande público, não passava senão de uma figura decorativa e que, no fundo, segundo estes, não foi tão responsável pela conquista do título nacional quanto Intiaz Amuji, publicamente reconhecido até pelo próprio técnico, Arnaldo Salvado.

No Maxaquene, Intiaz Amuji é uma figura nada consensual, porquanto se por um lado é (re)conhecido como um carola, que se preocupa em ajudar a equipa de futebol a ultrapassar alguns problemas quando surgem, por outro, no diferendo entre o clube e o Grupo Afrin no que à venda do campo de futebol diz respeito, Intiaz colocou-se sempre contra o clube.

Foi a mesma figura que, segundo soubemos, esteve envolvido no processo da aquisição das faixas de campeão nacional de 2012 que foram vergadas pela equipa de futebol antes do início do jogo da última jornada, em Vilankulo.

Esse processo foi feito à revelia d direcção do clube que, também, não gostou de ver Intiaz Amuji a postar para a posterioridade, junto dos atletas e equipa técnica numa fotografia em que o Maxaquene carregava as faixas de campeão nacional.

Idolatrado pelos jogadores, no final do jogo, Intiaz Amuji foi carregado pelos atletas numa celebração que, mais uma vez, esvaziou a importância da direcção do clube que, na Tribuna de Honra do Estádio Municipal de Vilankulos tinha, como um dos presentes, José Solomone Cossa.

Findo o jogo, Intiaz Amuji, que é natural de Vilankulos, terá influenciado o atraso em um dia no regresso da equipa à capital do país, de modo a que esta ficasse naquela Vila numa comemoração por si organizada e que, na qual, participaram alguns sócios e simpatizantes do Maxaquene.

Todas estas acções foram levadas a cabo sem o consentimento da direcção do clube, encabeçada por Solomone Cossa.

 

MUITOS JOGDORES NÃO

RENOVARAM CONTRATOS

Muito antes de José Solomone Cossa colocar o seu lugar à disposição, o Maxaquene ainda não havia começado o processo de renovação de contratos com alguns atletas de cujos vínculos chegam ao fim no final do presente ano e que, na verdade, o clube ainda está interessado nos seus serviços.

Do actual plantel dos campeões nacionais, quase todos os jogadores estão em final de contrato, mas, até ao fecho desta edição, ainda não tínhamos nenhuma informação que garantisse que algum teria já renovado o seu vínculo com o emblema tricolor.

Por isso, é quase seguro que alguns dos jogadores mais importantes dos campeões nacionais deverão rumar para outros emblemas porquanto, até a altura em que terminou o Moçambola-2012, ainda não haviam recebido uma proposta por escrito, com cláusulas claras, de renovação.

Jogadores como os guarda-redes Acácio e Soarito, os defesas Gabito e Eusébio, os médios Kito, Payó e Marvin e, ainda os avançados Hélder Pelembe e Tony deverão deixar de representar o Maxaquene a partir da próxima temporada.

Se por um lado a equipa vai perder jogadores influentes porque não renovou com eles os respectivos vínculos contratuais, por outro, dificilmente conseguirá ir ao mercado contratar os que seriam do interesse da sua equipa técnica quer por dificuldades financeiras assim como por ausência de um membro mandatado pela direcção do clube para o fazer.

 

PRÉMIO DO MOÇAMBOLA-2013

SERÁ PAGO APENAS EM MARÇO

Afinal, apenas houve festa em campo porque, em casa, os jogadores que conquistaram o Moçambola-2012 pelo Maxaquene não tiveram motivos financeiros para celebrar.

Fonte segura confirma o facto da direcção do clube tricolor ter - à última da hora, quando via que a era maior a possibilidade da equipa sagrar-se campeã nacional de futebol – estabelecido a quantia de 100 mil meticais como prémio para o efeito.

Só que nos dias que se seguiram à conquista do título, nenhum elemento da direcção do clube foi capaz de dizer aos atletas a data exacta em que estes iriam receber o valor do prémio.

Foi assim até dias depois do final do Moçambola-2012, quando os atletas e equipa técnica encontraram-se no campo da Machava, para onde, segundo nossas fontes, deslocou-se um membro da direcção, mas que não era o respectivo presidente, para dizer aos jogadores que o prémio só seria pago em Março… de 2013.

Para tanta demora na atribuição do prémio alegaram-se dificuldades financeiras provocadas pela greve havida dias antes nas Linhas Aéreas de Moçambique (LAM), uma das empresas integradoras do clube.

Desiludidos e sentindo-se enganados, alguns jogadores estrangeiros, segundo nossas fontes, terão inclusive chorado de tristeza porquanto na hora de regresso ao seu país de origem não levariam nada em mão que simbolizasse a colheita de uma época em que, inclusive, foram campeões nacionais em Moçambique.

 

Tremida participação

na Liga dos Campeões

Em contacto com a nossa Reportagem, ao princípio da noite de ontem, o treinador do Maxaquene, Arnaldo Salvado, disse que tem conhecimento do facto da Federação Moçambicana de Futebol (FMF) ter enviado à Confederação Africana de Futebol (CAF), o nome da sua equipa para representar o nosso país na edição de 2013 das eliminatórias da Liga dos Campeões Africanos.

No entanto, o treinador lamentou o facto de, internamente, ao nível do clube, não registar-se nos últimos dias acções que indiquem que, de facto, o Maxaquene vai participar na Liga dos Campeões.

É que, antes de entrar em competição na prova africana, os tricolores têm que confirmar, por sua livre e espontânea vontade, a participação nas eliminatórias e, depois, fazer a pré-inscrição dos jogadores que vai usar.

Nesse pormenor, o clube debate-se com graves dificuldades quer para renovar o vínculo contratual com uma série de jogadores que ainda deseja continuar a ter e também para contratar aqueles que estando em final de contrato em outros clubes, gostaria que fossem seus a partir do próximo ano.

Mas caso desista da participação na “Champions”, tendo em conta que a FMF já inscreveu a equipa junto a CAF, os tricolores serão obrigados uma multa junto ao órgão reitor do futebol continental.

 

Vitória sobre Grupo Afrin

no negócio do campo da baixa

Nem tudo são más notícias no Maxaquene!

Hoje, um Tribunal Arbitral criado pelo Centro de Arbitragem, Mediação e Conciliação, da Confederação das Associações Económicas de Moçambique (CTA), vai proferir uma sentença favorável ao Maxaquene no diferendo que opunha o clube ao Grupo Afrin, relativo ao negócio da venda do campo dos tricolores para aquele grupo empresarial.

O diferendo, lembre-se, surgiu quando o Maxaquene denunciou uma série de irregularidades no contrato-promessa que o clube havia rubricado em 2009 com o Grupo Afrin.

Desde então, um braço-de-ferro ficou estalado entre as partes, com o diferendo a forçar a criação de um Tribunal Arbitral constituído por um elemento de cada uma das partes em litígio e um neutro.

Analisados os factos, o Tribunal deverá pronunciar-se hoje a favor do Maxaquene, que  partir de uma dada altura não mais queria vender o seu campo para o Grupo Afrin.

Mesmo assim, os tricolores deverão devolver em dobro o valor de 60 mil dólares (cerca de um milhão e oitocentos mil meticais).

Assim, o Maxaquene pagará 120 mil meticais, cerca de três milhões e seiscentos mil meticais.

Por outro lado, os campeões nacionais deverão abandonar o campo que usam na Machava, ora disponibilizado pelo Grupo Afrin que, segundo nossas fontes, deverá também ser compensado pelo tempo em que os tricolores estiveram por lá instalados e a usarem-no visto que a promessa do negócio pelo qual estavam dispostos a fazer as partes não se efectivou.

Mas dessa compensação dever-se-á fazer a dedução das benfeitorias feitas durante esse tempo em que o campo foi usado pelos tricolores.