Quando mesmo negativo um resultado é justo

Com este desfecho, os “locomotivas” do Chiveve são obrigados a vencer o jogo da segunda mão por 2-0 ou, caso sofram golos, vençam com uma diferença superior a dois golos para seguirem em frente na competição continental.

Jamais um resultado negativo foi tão justo e espelho da produção das equipas em campo quanto o registado este domingo pelo Ferroviário da Beira, em Dar-es-Salaam, diante do AZAM FC.

Os tanzanianos ganharam bem pela margem mínima e justificaram a vantagem na eliminatória a meio dos dois jogos pela produção que tiveram em campo, e não mais do que um triunfo por 1-0 mereciam.

Os vice-campeões nacionais e vencedores da Taça de Moçambique/mCel de 2013 jogaram bem, mas estiveram longe de sair de Dar-es-Salaam com um desfecho positivo, até porque o máximo que podiam conseguir seria um empate.

Em todo o jogo, o AZAM FC, vice-campeão da Tanzania da temporada 2012/2013, ganhou um total de sete pontapés de cantos, contra apenas um dos “locomotivas” do Chiveve.

Este dado estatístico é uma pequena prova do quanto a equipa moçambicana sentiu algumas dificuldades para suster o ímpeto ofensivo do seu adversário, que marcou o único golo a três minutos do intervalo, por intermédio do costa-marfinense Kipre Tchetche.

Com este desfecho, a equipa de Lucas Bararijo é obrigada a vencer o jogo da segunda mão, próximo domingo, na cidade da Beira, por 2-0 ou, então, caso sofra golos, vença sempre com uma diferença de dois golos ou mais.

TREMER NAS ALAS E SOFRER

PELO CENTRO DA DEFESA

Porque em equipa que ganha não se muda ou, então, em equipa que não perde não se muda, Lucas Bararijo fez jogar de princípio os mesmos jogadores que defrontaram oito dias antes a Liga Muçulmana, em jogo da Supertaça, em que as duas formações empataram a um golo durante o tempo regulamentar e o prolongamento, levando a decisão para o desempate através da marca de grandes penalidades.

Isso equivale a dizer que, não mudando o escalonamento dos jogadores, também não mudou a disposição táctica em campo, com o guarda-redes zimbabweano Willard a ter à sua frente, no centro da defesa, a dupla Emídio e Cufa, com Butana à direita e Edson pela esquerda.

No meio-campo, Paito e Mandava foram os trincos, enquanto o capitão Maninho jogava encostado à ala direita, deixando a esquerda com Reinildo, numa equipa em que as despesas ofensivas foram entregues a Nelito e Mário Sinamunda.

Com aquela que é a esta altura a sua melhor equipa, o Ferroviário foi, inclusive, a primeira equipa a criar as maiores oportunidades de golo.

Logo no primeiro minuto, e na sequência de uma bola roubada à saída do AZAM FC da sua zona defensiva e em posição à baliza adversária, Mário rematou de forma espontânea, com os defesas a desviarem a trajectória da bola de qualquer maneira.

Depois, aos cinco minutos, na sequência de uma jogada de entendimento em que Maninho é solto pelo corredor esquerdo e, depois, cruza à meia altura para a área a solicitar a entrada de Nelito para emenda, mas com a defesa a antecipar-se e "matar" a jogada.

Os moçambicanos denunciavam, assim, que não estavam em Dar-es-Salaam apenas para ver o adversário jogar e deixavam claro que queriam ganhar mas, depois destes dois lances, começaram a ceder, principalmente no corredor direito, aquele que era coberto por Butana.

Aos 13 e 22 minutos, Butana esteve mal na abordagem dos lances e acabou cedendo pontapés-de-canto, numa tremedeira que fez com que, nos minutos seguintes, os tanzanianos canalizassem quase sempre os seus ataques pelo seu lado esquerdo.

Mas porque para além de defender Butana ajuda no ataque, aos 27 minutos, foi dele o passe - inteligente - para Nelito que, descaído pelo corredor direito e muito perto da grande área tanzaniana, provoca perigo em dose dupla, primeiro com um centro tenso que mais se parecia com um remate e, depois, no ressalto, o mesmo Nelito a desferir um portentoso remate que tal como o primeiro foi devolvido pela muralha defensiva do AZAM FC.

Se depois da insistência pela direita o perigoso avançado costa-marfinense Kipre Tchetche não teve sucesso, aos 33 minutos mudou de ala e foi ao corredor esquerdo onde passou em velocidade por Edson e cruzou tenso para a área, mas sem que tivesse aparecido ninguém para a emenda.

A esta altura, o certo é que os avançados não recebiam bolas em condições jogáveis porque o Ferroviário da Beira não tinha a posse de bola para, depois, ousar construir lances de ataques.

Nos bombeamentos da defesa, Mário e Nelito perdiam quase sempre as bolas altas devido à sua estatura e, no meio-campo, Mandava revelava-se pouco ousado e criativo, sendo que, com Paito mais defensivo, a equipa estava, assim, condenada a não conseguir criar perigo.

E o espetro de empate ao intervalo estava bem vincado até que, aos 42 minutos e na sequência de um livre cobrado com muita rapidez, a defesa moçambicana foi encontrada em contrapé e o mesmo Kipre Tchetche, depois de galgar o corredor esquerdo e na sequência de um primeiro ressalto a um primeiro remate seu que Cufa defendeu de cabeça, recarregou colocado a bater o guarda-redes zimbabweano Willard.

Na jogada, ficou claro que a defesa do Ferroviário da Beira teve responsabilidades, porquanto depois do primeiro remate de Kipre Tchetche faltou cobertura à área onde estava, a ponto de conseguir fazer um segundo remate, agora com sucesso, sem obstrução.

O intervalo chegava com o AZAM FC com uma justa vantagem e com a segunda parte a prometer.

SEGUNDA PARTE

SEM LANCES DE GOLO

Durante o intervalo, Lucas Bararijo deixou nos balneários Mandava, sendo que para o seu eu lugar entrou Henry, numa troca que tinha como objectivo dotar o meio-campo de maior capacidade de produção ofensiva.

Com apenas oito minutos em campo, Henry mostrou o que era capaz de trazer de positivo para o jogo, ao libertar Nelito com um passe de quase 30 metros a rasgar o meio-campo adversário, mas no momento de remate o avançado sentiu bastante pressão e, quando o fez, foi já sem perigo assinalável.

Depois, em quase toda a segunda parte, escassearam lances dignos de perigo, mas dos poucos destaque vai para a defesa, para canto, com uma palmada de Willard, aos 58 minutos.

Na jogada, Brian Umony colocou bem o remate junto ao poste esquerdo do guardião zimbabweano, mas este, com uma palmada, evitou o segundo golo dos tanzanianos.

Já aos 89 minutos, o Ferroviário quase que sofria o segundo golo quando, na sequência de um bombeamento para a área e com o guarda-redes fora da baliza, a bola foi embater no travessão, antes de ser aliviada por Paito e Maninho.

Até ao final do jogo e sem mudança no marcador, o Ferroviário da Beira perdia, assim, por 1-0, mas deixava a eliminatória em aberto para o seu campo.

Defrontámos

uma boa equipa

- Joseph Omog, treinador do AZAM FC

"Foi um bom jogo e gostei de ver esta equipa moçambicana. O Ferroviário é uma equipa boa em termos colectivos, mas também tem jogadores que se destacam individualmente. Para uma equipa que ainda não começou o seu campeonato, penso que fisicamente está bem. Agora nós conhecemos a equipa adversária e vamos tentar ir ganhar em Moçambique. Penso que podemos conseguir um resultado satisfatório no jogo da segunda mão."

Em casa podemos

marcar mais de um golo

- Victor Matine, treinador-adjunto do Fer. Beira

"Foi um bom jogo, em que nós estivemos bem nos primeiros 10 minutos. No entanto, a partir dos 15 minutos, o AZAM FC assumiu as rédeas do jogo e acabou conseguindo um golo com todo o mérito, ainda que um pouco consentido. Na segunda parte entrámos melhor, estivemos bem tacticamente, mas acabámos cedendo espaço. A eliminatória ainda está em aberto e acredito que em função do magro resultado que esta equipa teve aqui, perante o seu público, nós podemos marcar mais de um golo e passarmos a eliminatória.”

OK: Joseph Omog

"O AZAM FC soube explorar as fragilidades que o Ferroviário da Beira denotou, particularmente o corredor direito, onde actuou Butana. Depois, na única vez em que a defesa moçambicana falhou, o AZAM soube aproveitar, naquele remate de Kipre Tchetche que Cufa aliviou de cabeça e depois faltou cobertura para a recarga. Ganhou pela margem mínima, mas não podia por mais porque aí seria injusto para o Ferroviário da Beira."

KO: Lucas Bararijo

"Mais do que as tremedeiras do corredor direito da sua defesa, Lucas Bararijo não conseguiu fazer com que o Ferroviário da Beira tivesse a posse de bola. E, não tendo a bola para, depois, construir os lances, foi quase impossível a equipa chegar com frequência e com perigo junto à baliza do AZAM FC. Ora, no próximo domingo, a jogar em casa, se há algo a fazer para ganhar o jogo e passar a eliminatória, então os seus médios têm de ter a bola nos pés."

ARBITRAGEM

Quando as estrelas são jogadores

 "É raro encontrar arbitragens isentas em África. Aliás, no nosso continente, quem joga em casa é quase que um leão na selva, que usa todos os meios à sua disposição para ganhar jogos. Ora, se o AZAM FC tentou usar os meios à sua disposição para ganhar o jogo, não podemos nem tão-pouco confirmar, mas certo é que a arbitragem foi tão imparcial que merece os nossos elogios."

FICHA TÉCNICA

Chemazi AZAM Complex,em Dar-es-Salaam

Assistência:cerca de 7000 espectadores

Comissário da CAF:Hassan Mohamed Mohamed (Somália)

Árbitro:Mutaz Khairalla, assistido por Waleed Ali e Aarif Elton, todos do Sudão

Quarto árbitro:El Fatih Waleed (Sudão)

Acção disciplinar:cartão amarelo para Salum Abubakar (AZAM FC)

Golo:o único golo do jogo foi apontado por Kipre Tchetche, aos 42 minutos, para o AZAM FC

AZAM FC, 1

Mwadini Ali

Erasto

Malika

Aggrey

Said Moradi

Michael Boldu

Salum Abubakar

Hamid Mao

Khamis Mcha (62')

Kipre Tchetche

Brian Umony (72')

SUPLENTES UTILIZADOS

John Bocco (62')

Jabir Aziz (72')

NÃO UTILIZADOS

Aishi Manula

Luckson Kakolak

Ibrahim Mwaipopo

Abdallah Seif

Gaudence Mwaikimba

TREINADOR

Joseph Omog

FER. BEIRA, 0

Willard

Butana

Emídio

Cufa (77')

Edson

Reinildo

Paito

Maninho

Mário

Mandava (45')

Nelito (72')

SUPLENTES UTILIZADOS

Henry (45')

Djei (72')

Kiki (77')

NÃO UTILIZADOS

Luís

Coutinho

Gildo

Tinho

TREINADOR

Lucas Bararijo

Texto de Narciso Nhacila, nosso enviado especial a Dar-es-Salaam

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Fotos de Mohomed Ibrahim