“O som do apito já diz se o árbitro foi corrompido!”

Ainda ligado ao futebol como delegado da Liga Moçambicana de Futebol, Mário Monteiro foi também dos que responderam ao chamamento de Manuel Chang, na sua expedição com vista a apresentar a candidatura ao cargo de presidente da Federação Moçambicana de Futebol, iniciada em Maputo há sensivelmente dois meses e já aportadas na Beira, Nampula e, agora, Quelimane.

Por conseguinte, foi na sala do Hotel Executivo que Monteiro respondeu à provocação do jornalista que, inocentemente, o convida a emitir uma opinião sobre o estágio actual do futebol:

‑ E vossemecê o que é que acha?– retruca, também provocadoramente, o ex-árbitro, enquanto nós, de falsa astúcia, ampliamos a prevaricação com um desinteressado “O nosso futebol está bem. Aliás, está muito bem!”, procurando incitar uma resposta do aludido.

Desconfiado, Mário Monteiro olha-nos de soslaio e abana a cabeça desaprovadoramente. Mesmo depois de comprovar que apenas o estávamos a espicaçar para a resposta óbvia, o antigo árbitro internacional desvia-se do comentário solicitado e atalha-se no ofício que o projectou; a arbitragem.

Só pela apitadela dá para perceber

De chofre, começamos por perguntar a Mário Monteiro se achava mesmo que havia corrupção na arbitragem e assim explicando o facto de a verdade desportiva ser posta em causa muitas e variadas vezes, com prejuízos incalculáveis para a credibilidade das pessoas, dos clubes e até das próprias provas.

Sem apontar nem casos nem nomes, o insigne e ilustre personagem da arbitragem nacional, detentor de uma carreira internacional de 10 anos, refugia-se num “a mulher de César não tem que ser apenas honesta, mas também tem que parecer”, em alusão a indícios e sinais que alimentam um verdadeiro estado de suspeição que “não abona a favor do futebol”.

– No nosso tempo havia autocrítica– revela, a nosso pedido, o ex-árbitro internacional que conhece quase a totalidade dos países da África Austral mais uns tantos da África Central, com destaque para o Uganda, onde apitou três jogos das Afrotaças.

– Na segunda-feira depois dos jogos aquilo era muito duro, nem parecia que éramos todos amigos ali na Comissão Nacional de Árbitros. A crítica era muito dura – lembra Monteiro.

A verdade é que eesses encontros que dissecavam os jogos sob o ponto de vista da arbitragem ajudavam os árbitros a crescer profissionalmente e os resultados, de acordo com o próprio Mário Monteiro, podiam ser vistos logo na semana a seguir, quando as situações “autopsiadas” mereciam ajuizamento equilibrado, mercê da abordagem então havida.

Com alguma nostalgia, e sempre fugindo a aferrar a casos concretos de corrupção, uma vez que sendo actor privilegiado como delegado da Liga Moçambicana de Futebol, Mário Monteiro exalta e aplaude desacanhadamente José Ferreira Garrincha, o qual considera “único em termos de honestidade”, numa plêiade onde pontificam nomes como José Salvado, Freitas Branco, Gil Milando, os irmãos Vítor e António Alves, Issufo Costa, Jean Lucien e outros da sua geração.

– O que posso dizer é que basta ouvir a maneira de apitar de um árbitro para te dizer se ali há gato ou não! – concluiu, enigmaticamente, Mário Monteiro, sem mais se abrir.