A ingratidão (!?) de João Chissano

Tenho uma simpatia muito grande pelo seleccionador nacional de Moçambique, João Chissano, com quem sempre me relacionei muito bem profissionalmente, sobretudo desde que ele decidiu que o lugar para as suas botas era o museu e que a sua nova maneira de estar no desporto passaria a ser como treinador. De lá para cá mostrou-se aberto comigo, quer quando o pretexto para as entrevistas lhe fosse desfavorável, daí a minha admiração ao seu carácter, por lhe achar um homem que enfrenta os problemas de frente.

Aliás, esse sentimento será, por certo, de muitos colegas da imprensa e digo isto baseando-me no muito que sei a partir de conversas e vivências entre nós e o João Chissano, homem que se é aquilo que é hoje deve, em grande medida, à imprensa, que sempre o acarinhou desde os primeiros passos no Têxtil do Púnguè, passando pelo Costa do Sol, até hoje que bateu no tecto das aspirações de qualquer treinador a nível nacional, em termos de empregabilidade.

Lembro-me da pressão que a imprensa fez depois do despedimento do Gert Angels,  para que João Chissano deixasse de ser tratado como treinador-interino e passasse para treinador sem contrato precário. Lembro-me de outras pressões incessantes para que o mesmo João Chissano fosse considerado gente, que fosse olhado com olhos se calhar mais justos do que muitos estrangeiros que foram passando pelos Mambas com salários bons em troca de resultados maus.

A pressão da Imprensa sobre Faizal & Ca. surtiu algum efeito e se João Chissano hoje não aufere um salário miserável é porque os homens da pena jogaram um papel importante, de forma desinteressada e unicamente guiados pela necessidade de valorizar o que é nosso, de se fazer justiça com o homem, mas, infelizmente, esse mesmo homem já sabe olhar para os jornalistas como pessoas indesejáveis e que devem andar o mais distante possível de si e dos jogadores.

AFINAL O QUE FOI

QUE ACONTECEU?

Como tem sido hábito, alguns jornalistas, sempre que possível, integram a comitiva dos Mambas em viagens para o exterior e desta vez, na deslocação a Rustenberg, a FMF havia anuído que três jornalistas do desafio, notícias e Rádio Moçambique viajassem no autocarro da selecção. A integração resumia-se só no transporte, pois chegados ao destino os homens da pena estariam a suas expensas.

Estava combinado que a partida seria na sexta-feira última, dia 22. Na véspera, eu próprio voltei a falar sobre a viagem com Filipe Johane, Secretário Geral da FMF, que confirmou que os jornalistas iriam com a selecção, aconselhando-me a falar com o coordenador Valério Madeira para saber da hora da partida, adiantando, porém, que o autocarro partiria da Matola.

Convencidos de que viajaríamos com os Mambas, ficámos relaxados, mas tudo mudou de repente perto das 17.00 horas de quinta-feira, quando recebo uma mensagem do Secretário Geral da FMF, a dizer que infelizmente não vai ser possível seguirmos no carro da selecção, evocando, primeiro, o facto de a equipa técnica não querer que isso aconteça e, também, o facto de na fronteira exigirem acreditações (como se nós não estivéssemos acreditados!).

Confesso que fiquei boquiaberto com este volte face. Não respondi à mensagem, entendendo que mais do que respondê-la o mais importante era accionar rapidamente um plano B para que os três órgãos pudessem estar no evento, porque as vontades do João Chissano e de quem quer que seja nunca deviam ser superiores ao nosso dever de informar aos moçambicanos sobre a participação dos Mambas na Taça Cosafa, onde preparam a sua participação nas eliminatórias do CAN e do CAN-interno.

Porque já era tarde para fazer correr qualquer expediente tendente a permitir a compra dos bilhetes, a alternativa mais rápida foi de viajarmos por meios próprios (o resto se veria depois). A nossa intenção era seguirmos o autocarro da selecção, o que nos facilitaria a missão, uma vez que não conhecíamos o caminho, mas mais um revés vinha aí: nem João Chissano nem Valério Madeira respondiam às chamadas, talvez convencidos que pretendíamos renegociar a "boleia".

ANDAR ÀS ESCURAS

Parante o facto, decidimos partir às escuras. No mínimo sabíamos que os campos estavam na zona do Sun City e lá nos metemos na estrada ainda com a esperança de encontrar o autocarro pelo caminho, mas à medida que íamos devorando a N4 (Nelspruit, Pretória e por aí fora) ia ficando mais claro que não devíamos nos preocupar com o autocarro-guia.

A nossa capacidade de leitura da sinalização ao longo das estradas era a única salvação. Quando chegamos a Brits, pouco mais de 40 Km de Rustenberg, ia para as 18.00 horas e já começava a escurecer, pelo que decidimos procurar uma estância e lá pernoitámos. Sábado soubemos do hotel onde os Mambas estavam alojados, em Rustenberg, e mudámo-nos de Brits para Rustenburg, onde estamos neste momento, muito perto do hotel dos Mambas.

Tem piada que quando fomos visitar o hotel, à tardinha, o bom do João Chissano tinha ido à conferência de imprensa de lançamento do jogo Moçambique-Malawi, a ter lugar hoje. Deve ter gostado de falar para jornalistas de 13 países de África, menos para os do seu próprio país, que ele próprio ajudou a criar condições para que não estivessem no local, ignorando que esses jornalistas são o elo de ligação entre ele, os jogadores e os leitores moçambicanos.

Os transtornos que esta situação causou são incalculáveis, mas o que mais nos ofende é que esses transtornos podiam ter sido evitados. A FMF e o João Chissano têm o legítimo direito de dizer sim ou não. Estão livres de não quererem viajar com jornalistas no seu autocarro, mas o mais estranho nisto é que o acordo foi feito com muita antecedência, a FMF anuiu, para, à última hora, dar o dito por não dito para satisfazer os caprichos de um seu funcionário. Custava alguma coisa à FMF recusar na hora?

Mais perguntas para quê, se, orgulhosamente e contra a vontade de alguém, felizmente cá estamos nós a cumprir com a nossa missão.